Julho de 1937, em Portugal a ditadura de Salazar consolidava-se apesar do atentado falhado contra o Presidente do Conselho, ocorrido no dia quatro do referido mês.
Ao lado, em Espanha, a Guerra Civil atingia o seu auge. Nos arredores de Madrid, a cerca de 35 quilómetros decorriam sangrentos combates entre as forças republicanas e os nacionalistas, naquela que ficou conhecida pela batalha de Brunete.
Sob o comando do General Vicente Rojo, o exército popular republicano planeia um ataque com o objetivo de afastar as forças nacionalistas da capital espanhola. Franco reage enviando reforços do norte do país para a região de Madrid. Neste cenário, a força aérea alemã, através da conhecida Legião Condor, foi decisiva no apoio às forças de Franco, causando enormes baixas no exército republicano e gorando assim a intenção do general Vicente Rojo de manter os nacionalistas longe da capital.
Às quinze horas do dia quinze do mesmo mês de julho, em Moura, a poucos quilómetros da vila, aterra de forma forçada, por falta de combustível, um bombardeiro bimotor, alemão, de seu nome Pedro I.
O Administrador do concelho de Moura informa a Policia Internacional (Secção da PVDE) do acontecimento, tendo recebido desta instituição instruções para conceder todas as facilidades à tripulação.
A tripulação, de nacionalidade alemã, utiliza um táxi local para as deslocações entre o avião e a vila e fica hospedada uma noite no Grande Hotel de Moura.
No dia seguinte aterra no mesmo local um outro avião, trimotor, proveniente de Sevilha e tripulado igualmente por elementos de nacionalidade alemã. O bombardeiro é abastecido com 2000 litros de combustível e volta a descolar.
No dia 23 de julho o Administrador do Concelho de Moura informa por ofício o Governador Civil de Beja do acontecimento e aproveita para lhe enviar as faturas da estadia da tripulação alemã no Grande Hotel e das suas deslocações de táxi, no valor total de 210$00, para que este as apresente ao Consulado Espanhol em Lisboa.
As faturas são devolvidas no dia seguinte, alegando o Governador Civil que em Moura existia um Vice-Consulado de Espanha onde deveriam na sua opinião ser apresentadas as faturas.
A 15 de outubro, após uma tentativa de regularização das dividas por parte de um dos tripulantes, que não se viria a concretizar, o Administrador do Concelho resolve contactar diretamente o Consulado Geral de Espanha em Portugal e expõe-lhe a situação.
Em resposta o Consulado solicita informações adicionais sobre a ocorrência, nomeadamente a base a que pertencia o avião e quem eram os seus tripulantes, de forma a fundamentar o pagamento das despesas em causa.
O Administrador do Concelho esclarece então alguns pormenores do incidente, informando o Consulado que um dos tripulantes alemães, talvez o mais velho, que parecia ser o chefe, deixara um cartão-de-visita com o seu nome - Francisco Schwab. Segundo o Administrador, a forma fluente como falava o espanhol indicava que estaria há já algum tempo em Espanha, provavelmente em Sevilha, cidade como já vimos de onde voou o trimotor que abasteceu o Bombardeiro Pedro I, de forma a este poder regressar a Espanha.
Adiantava ainda o magistrado, que segundo declarações de um dos tripulantes o Pedro I regressava de Salamanca, onde havia participado nos bombardeamentos à zona de Brunete.
Após os esclarecimentos a dívida é finalmente saldada a 2 de novembro pelo representante do Estado Espanhol em Lisboa, o Marquês de Miraflores, D. Alonso Álvarez de Toledo y Mencos, que agradece ao Administrador do Concelho de Moura todas as facilidades concedidas aos tripulantes do avião.
Por sua vez o Administrador do Concelho agradece o envio do cheque para liquidação da dívida e deseja ao Marquês sucesso na luta que o “exército salvador” (nacionalista) trava em Espanha.
O conjunto de documentos que colocamos em destaque retratam um acontecimento que na altura terá tido algum impacto no dia a dia do nosso concelho, mas que não foi noticiado na imprensa local, nomeadamente no Jornal de Moura, contrastando com o que viria a acontecer poucos anos mais tarde aquando dos acidentes aéreos de 1941, na altura relacionados com a 2ª Guerra Mundial.
Também em relação ao fotógrafo de nacionalidade espanhola Zambrano Gomes, que quando ocorre este incidente já se encontrava estabelecido em Moura, não conhecemos qualquer registo deste incidente, ao contrário do que aconteceu com os já referidos acidentes de 1941.
Foram formas diferentes de abordar problemas semelhantes, justificáveis provavelmente por um conjunto de circunstâncias que terão tido impacto na forma de tratamento dos incidentes:
- Em 1937 o Administrador do Concelho era o magistrado que representava o Governo em cada um dos concelhos, portanto caber-lhe-ia a ele tratar assuntos relacionados com a segurança da nação, incluindo incidentes que abrangessem outros países; O mesmo já não sucedia em 1941, pois a figura do Administrador do Concelho já havia sido extinta pelo Código Administrativo de 1936, tendo as suas funções policiais passado a ser competência do Presidente da Câmara a partir de 1938.
- A nível local houve alguma discrição no tratamento do incidente, pois não chegou à imprensa local, nem ao menos à Câmara Municipal, onde não existe qualquer registo relacionado com o acontecimento;
- Quanto a Zambrano Gomes não temos qualquer pista que nos esclareça do motivo pelo qual não fez reportagem fotográfica, tal como o fez para os acidentes de 1941. Poderá porventura o facto de possuir nacionalidade espanhola ter interferido, preferindo não registar o acontecimento.
A pouca divulgação do acontecimento poderá também eventualmente justificar-se pela forma como Salazar e o Estado Novo lidaram com o conflito que se desenrolou aqui ao lado. Embora desde a primeira hora tivesse existido um apoio de Salazar às forças de Franco, este apoio foi no seu início algo discreto, crescendo à medida que a guerra se desenrolava, sendo menos declarado no início e tornado-de mais percetível a partir do final de 1937, com a nomeação de Pedro Teotónio Pereira como agente especial de Portugal em Burgos, capital provisória dos Nacionalistas.
Âmbito e conteúdo elaborado por Octávio Patrício (CMMRA), com recurso à consulta da seguinte documentação:
- Administração do Concelho de Moura- Correspondência Recebida Geral (1937);
- Administração do Concelho de Moura - Copiadores de correspondência expedida (1937)