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Filha de Maria Luísa Pires, solteira, tecedeira, moradora no lugar de Parada. Neta materna de Maria Joaquina Pires, solteira, camponesa. Nasceu em Chaviães a 21/11/1878 e foi batizada pelo padre Bernardo António Rodrigues Passos a 25 desse mês e ano. Padrinhos: Vitorino José Alves, viúvo, lavrador, e Rosa Joaquina Alves, solteira, ambos do Cortinhal, Chaviães. // A sua mãe, alegando pobreza, requereu à Câmara Municipal que a sua filha fosse aceite no hospício, o que aconteceu a 9/7/1879, ficando registada no livro dos expostos sob o n.º 335. // As autoridades camarárias decidiram que a criança ficasse com a progenitora, agora no papel de ama-de-leite, recebendo dos cofres públicos cerca de 800 réis mensais. // A 31/12/1884 a Câmara, tendo em conta a idade da menina e as melhores condições de vida da família, deixou de contribuir para a sua sustentação. // Faleceu no lugar de Parada, Chaviães, a 12/12/1954. // No “Notícias de Melgaço” n.º 1137, de 19/12/1954 o correspondente naquela freguesia escreveu: «Faleceu no dia 12/12/1954, no lugar de Parada, Chaviães, Melgaço, a indigente Rosa Pires (Rasela), que por caridade dos senhores José Maria Esteves e Júlio Alves, vizinhos da finada, foi feito um peditório para angariar o necessário para o caixão e outras despesas inevitáveis. No enterro da pobre “Rasela” um facto chamou a atenção de toda a gente e deu nota interessante da sua grande bondade. Possuía ela uma cadelinha, companheira inseparável da velha, e comparsa das suas horas de alegria e de dor. Com o falecimento da infeliz “Rasela” faltaram ao inteligente animal os carinhos habituais; ele estranhou o facto e todo o tempo que durou o depósito da defunta não foi capaz de a abandonar, como não a deixou em todo o acompanhamento, nem para comer. Escorraçado o pobre animal nesta ocasião, afastava-se um pouco para logo voltar para o pé do caixão mortuário. E agora que o corpo da infeliz “Rasela” descansa em paz no cemitério paroquial, ainda lá permanece, de dia e de noite, a uivar, que outra voz lhe não deu Deus, para mostrar aos homens a saudade da sua pobre dona.» // Inspirado neste insólito caso, escrevi o seguinte soneto: Chamavam-lhe simplesmente cadela, Àquele pobre e faminto animal, Que acompanhava, prò bem e prò mal, A indigente Rosa, dita “Rasela”. O mísero não saía junto dela, Dia e noite, ao frio, ao vendaval; À luz do sol, ao escuro sepulcral, Dando mimos, partilhando a gamela. Naquele dia… a doze de Dezembro, A velha mendiga deixa este mundo; O dócil cachorro – qu’eu sempre lembro, Chora, como criança abandonada… Renunciando à vida, moribundo, Morre encostado à campa da enjeitada!