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Comenta a espantosa revolução acontecida em França a favor de Bonaparte. Alerta para os inconvenientes do nosso contingente militar, estipulado pelo Tratado de 8 de Abril passado, e o emprego nos Países Baixos e na Holanda, ficando Portugal sem grande parte da fina-flor da sua tropa e exposto a um possível ataque conjunto da França e da Espanha. Receia que aconteça alguma crise em Espanha, visto que José Bonaparte fugiu da Suiça e encontra-se em Paris, podendo Napoleão enviá-lo a Espanha à frente de um exército francês e de um grande número de espanhóis descontentes que o governo insensato de Fernando VII tem concertado em França. É por isso urgente, que S.A.R. vigie o governo de Portugal e dê ordens para um armamento geral do reino e para que os ministros portugueses nas grnades potências recomendem vivamente para se persuadir principalmente a Grã-Bretanha da imotância de preservar Portugal e a Galiza de serem invadidos. É provável que a guerra da nova coalisão será duradoura porque ou os aliados invadem rapidamente Portugal para manter a ordem ou Bonaparte resiste mais algum tempo. Acha que os Plenipotencários que estão em Viena, como já se acham mandatados para negociar, deveriam ser nomeados para negociar a nova paz geral. Assim, o autor, partiria logo que acabasse o Congresso de Viena para Londres, juntamentecom Gameiro, para pôr o Arquivo da Legação em segurança e depois partir imediatamente para o local onde os primeiros estivessem em negociações. Remete a 2.ª via de uma carta que expediu em Novembro passado pela Corveta "Voador" sobre seu pedido de lhe darem um destino após o final do Congresso. Alerta para a necessidade das comunicações entre as missões estrangeiras se efectuarem de uma forma rápida, regular e segura, sugerindo que se mande alguns oficiais da Secretaria da Marinha a Londres para ficarem encarregues de distribuir os despachos.
Agradece a graça de [António de Araújo] e a outra de S.A.R., mas lamenta a situação em que se encontra a sua família e Silvestre [Pinheiro Ferreira] que, deitado no seu leito sofre, e permanece desonrado. Lamenta que todos os seus trabalhos no Rio sejam inúteis e que nada possa fazer por este homem. Recorda que [António de Araújo] tinha prometido fazer tudo o que estivesse ao seu alcance para resolver esta situação e que, se não quiser ver Silvestre morrer, deve cumprir a promessa de obrar por ele, ao menos, uma palavra ao conde de Aguiar. Pede-lhe que a instrua do que deve fazer e a que porta deve bater.
Agradece a António de Araújo por ter enviado o Oficial de Secretaria Manuel Rodrigues Gameiro [Pessoa] para o ajudar no trabalho manual da missão. Informa que fez a viagem para Viena na companhia de António de Saldanha da Gama. Elogia as capacidades deste Fidalgo e do marquês de Marialva "qualidades bem próprias para a vida diplomatica". Aconselha a manter Rafael da Cruz Guerreiro na missão de Londres, independentemente de se proceder a mudanças naquela Embaixada. Comenta o artigo secreto do Tratado assinado entre a Espanha e a Inglaterra, em que a primeira após ter prometido a abolição por tempo indeterminado, vem agora impor um prazo de oito anos. Duvida que esta transacção tenha envolvido contrapartidas financeiras, mas receia que esteja relacionada com a expedição espanhola que saiu de Cádis para o Rio de Prata. Receia que aconteça nesta região o mesmo que se passa com Olivença, para existir um pomo de discórdia constante entre as duas nações; e pela mesma razão a Inglaterra há-de procurar evitar que se fixe os limites da Guiana entre Portugal e a França. O estado turbulento e vacilante da Espanha e suas colónias devem fixar a atenção do governo português. Confessa que o Congresso tem durado mais do que esperava e que é impossível calcular o resultado final das negociações. Relega para futuros cartas mais informações sobre os melhoramentos que urge fazer no Brasil.
O autor, Conselheiro e Secretário geral do Congresso de Viena, sabendo que à semelhança de quase todas as pessoas empregadas na Missão portuguesa do Congresso, pode S.A.R. nomeá-lo para outra missão após o final do Congresso. Neste sentido, apresenta ao "patrono" António de Araújo que os seus desejos, na avançada idade em que se encontra e sem mulher nem filhos, passam por dedicar o resto da sua vida aos trabalhos e aplicações a que sempre se dedicou no Real serviço. Propõe que finda esta comissão seja nomeado para Conselherio de Comércio nas missões estrangeiras, encarregando-se de promover oficialmente os trabalhos de rever comparativamente todos os Tratados celebrados entre Portugal e outras nações, confrontando-os com a legislação, para sugerir alterações e melhoramentos permanentes e progressivos; fornecer uma organização entre as missões e consulados portugueses no estrangeiro, para que estes apresentem relatórios anuais a S.A.R. e ao seu Ministério com informações exatas das legislações económicas e comerciais de outras nações; exercer uma rigorosa inspecção sobre estes trabalhos para que não haja lugar à relaxação enquanto se promove nas altas repartições a aplicação útil de tais trabalhos. A execução destas propostas deverão originar grande número de indivíduos habilitados para tais objectos. Se receber esta nomeação a sua residência principal deverá ser em Inglaterra, por esta ser o centro de comércio e possuir grande influência na produção de legislação comercial e financeira. Ocasionalmente poderá efectuar deslocações à França, Holanda e Alemanha para indagar elementos para os referidos trabalhos ou para negociar novos Tratados ou Convenões comerciais. Pretende continuar com o ordenado concedido pelo Decreto de 25 de Junho de 1814 inerente ao cargo de Conselheiro e Secretário Geral da Legação ao Congresso. Se esta proposta não for diferida, regressará a Londres e às funções que então exercia como Oficial da Secretaria de Estado.
O autor, Conselheiro e Secretário geral do Congresso de Viena, sabendo que à semelhança de quase todas as pessoas empregadas na Missão portuguesa do Congresso, pode S.A.R. nomeá-lo para outra missão após o final do Congresso. Neste sentido, apresenta ao "patrono" António de Araújo que os seus desejos, na avançada idade em que se encontra e sem mulher nem filhos, passam por dedicar o resto da sua vida aos trabalhos e aplicações a que sempre se dedicou no Real serviço. Propõe que finda esta comissão seja nomeado para Conselherio de Comércio nas missões estrangeiras, encarregando-se de promover oficialmente os trabalhos de rever comparativamente todos os Tratados celebrados entre Portugal e outras nações, confrontando-os com a legislação, para sugerir alterações e melhoramentos permanentes e progressivos; fornecer uma organização entre as missões e consulados portugueses no estrangeiro, para que estes apresentem relatórios anuais a S.A.R. e ao seu Ministério com informações exatas das legislações económicas e comerciais de outras nações; exercer uma rigorosa inspecção sobre estes trabalhos para que não haja lugar à relaxação enquanto se promove nas altas repartições a aplicação útil de tais trabalhos. A execução destas propostas deverão originar grande número de indivíduos habilitados para tais objectos. Se receber esta nomeação a sua residência principal deverá ser em Inglaterra, por esta ser o centro de comércio e possuir grande influência na produção de legislação comercial e financeira. No caso de ser aceite esta sua proposta, começará já, antes de se transferir para Londres, a trabalhar sobre as nossas relações comerciais com a Alemanha e com a Itália. Pretende continuar com o ordenado concedido pelo Decreto de 25 de Junho de 1814 inerente ao cargo de Conselheiro e Secretário Geral da Legação ao Congresso. Se esta proposta não for diferida, regressará a Londres e às funções que então exercia como Oficial da Secretaria de Estado. Em P.s. de 22 de Novembro, informa que remete uma carta em anexo ao marquês de Aguiar, Ministro dos Negócios Estrangeiros, a este respeito. A mesma carta vai com selo volante para que António de Araújo dela faça o que entender. Pede a intervenção do destinatário Para nunca mais ser nomeado para Secretário de outra missão porque quem exercita tal cargo é obrigado a escrever muito e por vezes recai sobre si a penosa tarefa de sancionar com a sua letra opiniões de outros que às vezes são contrárias às suas.
Como António de Araújo já deverá ter conhecimento de que os Plenipotenciários portugueses já foram admitidos ao Congresso e que as primeiras sessões já tiveram lugar. Limita-se a fazer algumas reflexões sobre o prospecto das negociações em gerale quais aquelas que lhe parecem dever ser as operações futuras para remediar erros passados e promover a monarquia lusa. As quatro grandes potências, Rússia, Prússia, aústria e Alemanha, "conciliabulo ou conclave das verdadeiras negociações", estão ocupadas a ajustar entre si os seus próprios interesses, não se interessando no Congresso em favor das outras potências. Pretendem excluir a França com base num artigo secreto do Tratado de Paris. A frança chama a si a missão de proteger os fracos que as outras nações pretendem despojar das ditas partilhas. Interesse das grandes potências em dissolver o Congresso o mais rápido possível para regularizar as suas finanças através da dissolução dos grandes exércitos que conservam. Prevê que não se entendam nas partilhas ficando os territórios tal e qual já estão determinados. Aconselha a que a legação portuguesa imprima no Congresso uma reforma das relações políticas e comerciais com as grandes potências, nomeadamente com a Rússia e a Aústria, desencadeando um processo que permitiria a Portugal demarcar-se da independência inglesa. Sendo que os ministros portugueses enviados ao Congresso são os que estão destinados a residirem na Rússia, Aústria, Inglaterra, deverão nessas residências prosseguir com as negociações iniciadas no Congresso. Refere-se às restituições e aquisições territoriais a que Portugal tem direito. Aconselha a preservar a independência financeira da Coroa portuguesa, substituíndo os ruinosos subsídios e empréstimos estrangeirs por sábias reformas em vários ramos da administração interna e externa para aumentar as rendas do Estado. Defende uma judiciosa e activa direcção das nossas relações exteriores; fomentar a indústria, comércio e navegações nacionais. Remeterá em anexo de uma outra carta um plano de trabalhos sobre estes assuntos contendo três pontos essenciais: 1.º Crítica ao Tratado de 1810 com a Grã-Bretanha, que foi tão lesivo a Portugal e para evitar futuras situações semelhantes, propõe o envio regular de informações e observações sobre as potências com quem Portugalvier a negociar contratos; 2.º organização das missões estrangeiras e consulados e sua sincronização como Ministério; 3.º promover uma inspecção sobre as diversas repartições públicas e evitar que façam somente trabalho de rotina ou de expediente.
Espera que António de Araújo já tenha recebido o "Memorandum" sobre a escravatura que o autor compôs a pedido do marquês do Funchal, para o caso de ele vir ao Congresso. Remete em anexo: uma memória traduzida e impressa em Paris, sobre o mesmo assunto e a tradução das petições dos negociantes da Baía também feita naquela cidade; um "memorandum", pedido pelos Plenipotenciários, indicando as claúsulas que se devem inserir em qualquer concessãoque S.A.R. queira fazer à Inglaterra em matéria de comércio de escravos; passagens e documentos notáveis dos "reports" da instituição africana de Londres que provam que os ingleses pretendem com a abolição organizar uma pirataria sistemática; uma memória pedida pelos mesmos Plenipotenciários para demonstrar que S.A.R. tem o direito e meios para anular o Tratado de Comércio de 1810, o qual acha que deverá ser anulado na sua totalidade sem se adoptar meios termos por forma a acabar com o monopólio que a Inglaterra tem sobre o nosso comércio. Expõe as condições que defende para a concepção e ratificação de Tratados. Refere-se à prorrogaçãoe ampliação temporária das relações comerciais entre a Rússia e Portugal em vez de se avançar imediatamente para um Tratado formal de longo prazo. Os ministros de todas as grandes potências em Viena estão desejosos de estabelecer relações comerciais com o Brasil. Defende novamente a criação do cargo de Conselheiro de Comércio nas legações estrangeiras, que já propôs na carta de 21 de Novembro.
Oferece uma cópia do "Memorandum" contendo os argumentos e propostas mais essenciais sobre o comércio de escravos, que lhe foi pedido pelo Embaixador. Informa que a última carta que recebeu de António de Araújo foi a de 9 de Agosto, o que lhe causa alguma confusão apesar da perda de alguns paquetes. Informa que a "doença da Espanha passou de febre inflamatória a podre" e muito embora não tenha consequências para Portugal é bem ossível que influa nas colónias espanholas, devendo estar atento ao que se passa no Brasil. Chegou o tempo das partilhas entre as grandes potências. Já cmeçaram as conferências entre os comissários ingleses e americanos, embora lhe pareça que não vão concluir a paz em breve e que a guerra poderá estender-se a outras potências. Luís XVIII recebeu o Ministro americano que Napoleão se tinha negado. Os corsários americanos estão a atacar em gende força os navios ingleses, em razão do bloqueio aos seus portos, e também todos os navios que saiam de portos ingleses, tendo já causado grandes transtornos à navegação portuguesa.
"Lembranças sobre a questão de abolir o comércio de escravos nas costas de África". Possui cinco apêndices em inglês: Discurso de Lord Greenville, publicado no "Morning Chronicle" em 28 de Junho de 1814; Sétima Resolução do "Meeting" publicada no "Morning Chronicle" de 18 de Junho de 1814; Procedimentos da Associação para a promoção da descoberta do interior de África, impressa em 1791.; Discurso de Lord Liverpool publicado no "Morning Chronicle" de 28 de Junho de 1814; Discurso de Lord Castlereagh publicado no "Morning Chronicle" em 28 de Junho de 1814.
Acusa a receção da carta de António de Araújo de 2 de Julho pela mão de António de Saldanha [da Gama], assim como o despacho com que S. A. R. honrou o autor. Agradece a promoção do seu despacho. Todavia, preferia ficar com a mercê dos 500 $ réis, a qual também deve ao destinatário, continuando a empregar-se em objectos de comércio e economia política do que ver-se agora envolvido "no labirinto ou chaos dos nossos negocios políticos deixados por tanto tempo à revelia". Diz que quando aconselhou a nomeação de pessoas de saber e experimentadas para acompanhar os ministros portugueses em missões exteriores, nunca lhe passou pela cabeça que fosse um dos escolhidos. Concorda com o destinatário quando lhe diz ter chegado o momento de "alcançar mos a independencia". Os ministros das grandes potências já estão em Viena e se eles estão a tratar com frieza das partilhas da Alemanha, Polónia, Itália, muito receia o autor Que podem fazer o mesmo com outros territórios sobre os quais não tenham instruções. Louva o sacrifício pessoal de António de Araújo para estar ao serviço de S.A.R., sendo este o maior estímulo que podia receber. O novo emprego obriga-o a expôr uma circunstância , enquanto foi Oficial da Secretaria de Estado e apesar de ter direito à insígnia da Ordem de Cristo, nunca pediu tal mercê, mas com o novo emprego desejaria usar a decoração ou do Hábito de Cristo ou de Torre e Espada.
"Passagens Notáveis dos "Reports" da Instituição Africana de Londres com alguma observações".
Lamenta a morte do conde das Galveias. Diz que tem em seu poder as últimas 61 páginas escritas por ele e das quais está a retirar um extracto e a acrescentar algumas observaçõesessenciais sobre cada um dos oito pontos. Estimou ver que um dos pontos defendia que a navegação entre possessões portuguesas deve ser feita unicamente por navios nacionais, apesar de saber que ter chegado a Lisboa navios ingleses vindos do Rio e da Baía. Defende o uso imediato desta proibição para não aniquilar a navegação portuguesa. Pela gazeta inclusa verá o que se vai passar nas negociações entre a França e os aliados a respeito do comércio da escravatura. Defende a aplicação de Mr. Wilberforce de que o governo português só deve cooperar em tal medida quando a Corte já estiver instalada na Europa, em virtude do estado de exaltação em que se encontram os povos do Brasil, devido à rapina e violência que sofrem os seus navios. As Convenções Preliminares entre a França e os aliados foi assinada por Talleyrand, quem o autor presume ficará com os Negócios Estrangeiros, por opção do próprio Luís XVIII. Alguns Marechais de França estão desgostosos com a mudança porque ficaram subordinados ao novo governo. Os prisioneiros que os aliados vão restituindo são bonapartistas, devendo à imitação de Bonaparte e após a paz de Amiens, serem empregados numa expedição a São Domingos. A grande maioria em França apoia os Bourbns. Tem recebido notícias de Madrid até 13 de Abril: Fernando VII foi recebido com entusiasmo em Saragoça acompanhado por Palafox e partiu depois para Valência e dali para Madrid. O Infante D. António seguiu directamente de Saragoça para Madrid.
Informa que remeteu por este Paquete duas números da gazeta "Morning Chronicle" onde o destinatário Poderá ver a aniquilação de Bonaparte e a restituição dos Bourbons. Comenta a nova Constuição francesa, publicada em outras gazetas posteriores às primeiras. Os soberanos aliados estão em Paris e presenceiam a estas negociações com "200 mil baionetas Vítoriozas" e é natural que não lhes agrade verem Luís XVIII entregue aos assassinos de seu irmão, do Senado, dos marechais e exército de Bonaparte; mas que desejando o sossego de França e a paz da Europa façam empregar o Direito Canónico de Frederico II. Talleyrand é o primeiro grande móvel do que se passa em França e depois de dar o primeiro passo em favor dos Bourbons deverá preparar "uma espece de 18 Tructidor" para os colegas que desonrem o corpo. O irmão de Talleyrand foi a Londres apresentar a Constituição a Luís XVIII e convidá-lo a regressar a França. Fernando VII, de Espanha, e o Infante D. António já chegaram a Girona, sendo que o Infante D. Carlos foi posto em liberdade para seguir-lhe o trajecto. Lord Castelreagh estava em Paris, ao que se presume a ultimar uma convenção preliminar para a suspensão das actividades marítimas. Fala-se que se expediram 25 mil ingleses de Bordéus para a América do Norte para fomentar a separação das províncias do Norte das do Sul. Parece que o Duque do Infantado vai como Embaixador a Paris e só Portugal é que não se dignou de mandar cumprimentar os soberanos aliados pela feliz restauração da Europa, quando já passou um ano da batalha de Moscovo. Depois de tão grandes proezas dos portugueses que contribuiram para o actual estado da Europa, parece que a "Monarquia Portuguêsa fosse no Mundo da Lua!!!". Em P.s. viu num ofício de D. Miguel Pereira Forjaz que se esperam dois navios em Lisboa, vindos do Rio de Janeiro, com Despachos. No caso de se ter expedido a ordem para o A. Receber os emolumentos, pede ao destinatário que faça expedir a 2.ª via e que os faça pagar tal como o fazem a Rafael da Cruz Guerreiro. Remete à cautela uma gazeta de ontem com a nova Constituição francesa.
Informa que depois de ter expedido as cartas de 10 e 18 de Abril, chegou um paquete do Rio sem qualquer carta de António de Araújo, o que o leva a crer que nos dois paquetes de Outubro e Novembro vinham cartas participando a solução do negócio que o autor tinha proposto, bem como os despachos que o Embaixador estava a aguardar. Como recebeu um despacho do marquês de Aguiar, ministro dos Negócios estrangeiros, expediu-lhe uma carta, cuja cópia remte em anexo, apresentando as suas propostas para continuar a proceder à preservação das suas colecções. Felicita o destinatário por estar Ministro da Marinha e do Ultramar e espera que ponha "em execução os planos que a sua reconehcida inteligência e patriotismo lhe dictarem sobre tão importantes objectos". Redobrará os esforços para que os seus trabalhos e aplicações possam ser utéis aos planos do destinatário para a marinha mercante e marinha de guerra. Alerta para os papéis públicos que publicaram a Convenção Preliminardos aliados com a França, que será em poucos dias, seguido de um Tratado de Paz definitivo, contendo as partilhas, ficando os detalhes para serem regulados um Congresso. Está ansioso para ver que destino terá Nápoles, e que segundo ouvir poderá ficar para Murat; Beauharnois terá também um estabelecimento na Alemanha. Refere-se à batalha de Toulosa que ocorreu devido ao atraso docorreio de Madrid, ignorando-se quem foi o responsável por tal manobra. Nos mesmos papéis sairam a notificação do ministério inglês para o bloqueio dos portos da Noruega. Diversas opiniões sobre se está ou não para breve a pacificação com os Estados Unidos, apesar de se estarem a preparar para transportar dez mil homens de Lord Wellington para prosseguir a guerra.
O autor, Cônsul Geral de Portugal em São Petersburgo e Negociante de vinhos, expõe a António de Araújo as graves dificuldades em que se encontra a sua casa comercial devido à ausência de fundos. Solicita a protecção do destinatário para a mesma, e sustenta que agora que o mesmo vai viver para junto do Trono do Príncipe-Regente poderá ajudar a salvar o único estabelecimento comercial português no império russo. Caso não consiga os ditos fundos, solicita-lhe que inste junto do monarca para lhe alcançar a nomeação para outro local em que a carestia de vida seja menos significativa. Informa que já alertou o Ministério e a Companhia dos Vinhos do Alto Douro para esta situação, mas não obteve resposta. Informa que o seu sócio Joaquim José Gonçalves acompanhará o dest. nesta sua viagem para Lisboa, podendo expôr todo o sucedido. Pede protecção para receber os ordenados em atraso, que apesar da carta de D. João de Almeida de Melo e Castro não foram desbloqueados. Refere-se ao falecido Barão José Celestino Velho
Relembra a primeira vez que teve a honra de conhecer [António de Araújo] foi em casa de Madame Ofarill e recorda que foi graças ao talento dele e à forma como falava deste país que vieram para a América. Refere-se à carta recebida de Madame Zélie, da Holanada, e à discórdia e à intriga que está instalada à sua volta. Embora saiba que é aspirar a muito, convida o destinatário para se deslocar a sua casa onde se propõe a falar sobre o assunto.
Solicita ao Chevalier uma audiência para falar de uma carta que recebeu de França há já alguns dias. Toma a liberdade de enviar algumas cartas para seguirem com os despachos que vão para o Embaixador em França.
Escreve ao Chevalier sobre o comendador de Drucom, cavaleiro professo da ordem de Malta, que não tem outros herdeiros senão esta Ordem e os seus credores. A autora e o conde de Gestas estão encarregues das dívidasdo referido Drucom. Em P.s. refere-se ao restabelecmento do rei de França.
Justine Pinheiro née de Leidholdt, desculpa-se por enviar uma segunda carta, insistindo no convite para tomar chá. Diz que está disposta a fazer tudo o que está ao seu alcance para acabar com esta situação e, portanto, pretende comunicar, pessoalmente, o meio que encontrou para restablecer o negócio, estando segura de que a situação não permanecerá idêntica se este meio for aplicado. Se o desejo do destinatário for, verdadeiramente, o da paz, está certa de que ele aceitará o convite para esta noite.
Participa a [António de Araújo] que acredita ter encontrado o meio de proceder. O Marquês de P., quem estima e considera, não lhe recusou a oportunidade de participar ao destinatário em que circunstâncias se encontra o negócio. Como a empresa é grande a autora receia naufragar e confia o seu rumo nas mãos da Providência e nos sentimentos de [António de Araújo]. Em P.s. comunica que recebeu uma carta de Madame Durand que a encarrgea de apresentar as suas respeitosas homenagens.
Acusa a receção da carta de 11 de Dezembro, tendo na altura já recebido um despacho do conde das Galveias com data de 16 de Agosto em que este acusava a receção de várias cartas e de duas memórias, que eram dirigidas ao conde de Linhares. Felicita o destinatário pelas proezas que os russos têm alcançado, as quais poedem mudar a face da Europa, assegurando a liberdade da Alemanha e a independência de todas as potências europeias. Refere-se à formação de um contingente de 70 mil homens, proveninetes da Legião alemã e do exército russo, que será comandado por Bernardotte. A Aústria, apesar do seu parentesco com Bonaparte, já mostrou que não tem intenção de unir-se-lhe, em virtude da oferta dos aliados que permitirá a Viena recuperar os seus direitos em Itália, na Illiria e na Alemanha. Entretanto, o Senado francês votou a favor de um exército de 530 mil homens para servir a "ainda verde e mesquinha dymnastia" bonapartina, o que o autor duvida seja possível alcançar devido ao trauma dos holandeses, italianos e franceses que viram 600 mil dos seus amigos e parentes serem sacrificados às mãos da ambição de Bonaparte, e até os erros crassos cometidos na Península [Ibérica] e na Rússia são reconhecidos pelos seus partidaristas. Assim, as fileiras dos aliados aumentam, prevendo-se grandes transtornos a Napoleão. Lamenta que nestas circunstâncias Portugal esteja sem Ministro acreditados por S.A.R., na Rússia e em Viena para negociar futuras alianças comerciais e matrimoniais. Informa ao destinatário dos rumores que circulam sobre as potências que pretendem fazer Tratados de Comércio com Portugal, aconselhando o destinatário, enquanto Conselheiro de Estado, que impeça a prossecução destas práticas que poderão levar à destruição e ruína total do comércio e marinha portuguesa. Acha que se deve seguir a máxima de João de Wix que estando uma nação em fraqueza ou em dependência de outros não deve fazer tratados desta natureza, deve antes olhar estas propostas com receio porque em vez "de Tratados são Tratadas como [...] lhe chamava o honrado e patriótico Ministro Martinho de Mello". Alerta ainda para a indefinição da fixação da Corte e o adiamento da paz geral poderão influir nestas questões. Exemplifica com o Tratado firmado com a Grã-Bretanha e principalmente com o caso da Companhia do Porto, onde a Inglaterra compeliu Portugal a obrar contra os seus próprios interesses, acabndo assim com a reciprocidade que deve existir nestes acordos. Pede protecção para o requerimento do seu irmão Simão José de Azevedo, em que este pedia a propriedade do Ofício de meirinho do Conselho da Fazenda. Em P.s. indica o endereço para o qual deve remeter a correspondência.
Acusa a receção da carta de 20 de Maio. Lourenço Rodrigues de Sá, Agente da Companhia do Porto em Londres, remeteu, ainda antes de se saber da morte do conde de Linhares, cópias de duas Memórias da autoria de Ambrósio Joaquim dos Reis a favor da dita Companhia, pedindo a proteção de António de Araújo para a mesma, visto que enquanto foi Ministro em Portugal sempre protegeu a dita Companhia das maquinações que os negociantes ingleses se insurgiam para extingui-la. Como sabe que o conde das Galveias corre perigo de vida, pede ao destinatário que as leia e proteja a dita Companhia. Informa que as mesmas memórias não causaram qualquer impressão a Linhares como esperava "graças provavelmente às preocupações que lhe tinhão inspirado o author da infame obra do commercio franco do Brazil". O Governo de Lisboa recebeu muito bem as ditas memórias, tendo até um dos Governadores lhe remetido uma carta para se fazer publicar no "Investigador Português", e que foi publicada nos dias 11 ou 12. Informa de um "meeting" de 8 ou 10 pessoas lideradas por James Warre para pedir à Câmara dos Comuns a execução de alguns pontos do Tratado de Comércio de 1810 e particularmente a extinção da Companhia [dos Vinhos do Alto Douro]. Fala da apatia dos agentes da Companhia em Londres perante a apresentação de Canning da referida petição no Parlamento inglês e que só o zeloso Lourenço Rodrigues de Sá agiu. Pelo Navio "Hanna" remete um exemplar da tradução da sua carta com a circular dos correpondentes. Refere-se à Memória sobre os meios de corrigir os abusos introduzidos na administração da Companhia do Porto, com algumas observações sobre o Tratado de Comércio entre S.A.R. e S.M.B., a qual foi escrita com o fim particular de impedir os danos que nos poderia causar a falsa e injusta aplicação de reciprocidade. Remeteu também as obras "Shipmaster's assistant steel Tables of Customs etc." que contem alguns príncipios aplicáveis ao Brasil. Informa do endereço para onde deve enviar a resposta. Sente muito pela saúde do destinatário não ser a melhor.
Comunica os resultados dos exames efectuados, pelo hidrómetro de Clarke, as três qualidades de aguardentes do Brasil que os capitães dos navios traziam para o seu gasto. Elogia o Rum da Jamaica, de Tobago e das Ilhas de "West Indies", os quais são de maior força que os do Brasil sendo por isso os preferidos dos negociantes importadores. Comenta o efeito no comércio causado pela destruição dos vinhos em Portugal pela guerra e passagem das tropas aliadas e inimigas. Aponta medidas para revitalizar a produção de aguardentes e bebidas espirituosas do Brasil para fazer face ao Rum da Jamaica e de Tobago. Comenta a pouca saída que o açucar e o algodão do Brasil têm vindo a registar em virtude do tirânico sistema continental de Bonaparte. Deseja informações sobre os processos de fabrico destes produtos, sem que se omita alguma explanação, para depois poder comunicar as alterações a efectuar-se para obter o melhoramento dos mesmos. Pede ao destinatário Que remete as cartas à Casa de Brás Carneiro Leão e que este as remeta ao cunhado António Martins Pedra.
Informa que a última carta que recebeu de António de Araújo foi a de 9 de Agosto, na qual lhe dava esperanças em que o conde das Galveias promoveria a justa pretensão sobre o recebimento dos emolumentos ou de um valor equivalente. Como pelos paquetes de Setembro, Outubro e Novembro, chegados dessa Corte, nada recebeu, roga ao destinatário que se por acaso lhe tenha sido concedida esta mercê, que remeta a confirmação da mesma por três paquetes sucessivos. Seja ela na forma recebida por Teodoro José Pinheiro, que recebe em lisboa, ou como a Rafael da Cruz Guerreiro que recebe os 5oo $ réis na Lista da Secretaria de Londres. Pela fragata "Hermes" recebeu a desagradável notícia do falecimento do conde das Galveias. Pede ao destinatário que interceda junto domarquês de Aguiar ou de quem tomar a Pasta dos Negócios Estrangeiros, se por acaso Galveias não chegou a diferir esta pretensão. Num P.s. de 18 de Abril, o destinatário verá pela carta e boletim anexo do estado em que a Europa se encontra, e logo reconhecerá a grande utilidade das colecções que o autor Tem constutído e pretende continuar caso receba tal mercê.
Informa ao conde da Barca que dirigiu na última embarcação uma carta referente às suas pretensões. Vivendo na incerteza, repete as suas súplicas sobre o seu requerimento para o cargo de Conselheiro Honorário da Fazenda. Comunica que pensa pedir a demissão do cargo de Desembargador visto que por esta categoria, o seu requerimento quando fosse à consulta ao Desembargo, poderia servetado devidoà sua pouca antiguidade naquele orgão. A alternativa será fazer uso do estatuto de lente o que seria algo perigoso, visto a estes "privilégios que o Desembargo abomina, e a que sempre obsta" de uma forma incoerente. Reforça a ideia de que não requer nada que não lhe pertença e manifesta a sua vontade em deixar a vida pública caso a seja recusada a sua pretensão. Relembra que foi o Duque de Lafões quem pediu ao conde da Barca que protegesse o autor.
Acusa novamente a receção das cartas de 25 de Julho e de 9 de Agosto passados. Pelos paquetes de 17 de Setembro e de 17 de Outubro, não recebeu qualquer missiva, receando que neste último se tivesse perdido a resolução da sua pretensão sobre os emolumentos da Secretaria. Como os paquetes precedentes que saíram de Inglaterra forma tomados, o autor repete que Rafael da Cruz Guerreiro recebe 500 $ réis pela lista da Secretaria de Londres e que Teodoro José Pinheiro recebe os mesmos emolumentos em Lisboa. Pretende usufruir destas regalias por forma a continuar as suas colecções e ter uma casa em Londres que as conserve em bom estado. Pede uma resposta por vários paquetes devido aos inúmeros perigos que assolam os mares. Alerta para os papéis públicos recentes em que vem o discurso que Bonaparte abriu o Copro Legislativo em 19 de Dezembro e para a declaração dos aliados publicada no dia 1 de dezembro em Frankfurt, parecendo que ambos convergem para as negociações da paz. A neutralidade da Suiça pode estar por dias, visto que estes podem querer recuperar os territórios usurpados pela França. Refere-se aos esforços militares da França para evitar a todo o custo uma invasão e não deixar de ser curioso o facto de em todos os dicursos que se acham nas gazetas francesas não se encontrar qualquer referência ao "grande exercito francez" como outrora. Alerta para a nota dos ministros austríacos ao "Laudamman" da Suiça sobre a entrada das tropas aliadas neste território; a ordem do dia e proclamação do Príncipe de Schwartemberg ao mesmo respeito, em que um dos ministros que a assina é Mr. Lebzeltern, que dizem ser o braço direito de Metternich. Lord Castelreagh partiu para o Quartel General dos Aliados, talvez pouco satisfeito com a declaração publicada no dia 1 de Dezmbro pelos aliados. Estes estão cada vez mais fortes e não param a sua marcha enquanto que os franceses estão cansados de guerra e de Napoleão que na Península [Ibérica], Moscovo, e Leipzig sacrificou um número imenso de soldados, eclipsando a sua glória militar. Não se admira se em pouco tempo os mesmos franceses restituírem os Bourbons. Refere-se às batalhas em que Wellington derrotou Soult, tendo o exército português ganho grande notoriedade sendo por este motivo necessário começar a promover a Oficiais superiores as tropas portuguesas que estão esquecidas neste ponto, à excepção de Lecor. A Dinamarca assinou armistício e em poucos dias deverá juntar-se aos aliados. As Cortes e regência de Espanha já estão em Madrid. Além de Castelreagh, estão da parte da Inglaterra no Quartel General, Lord Aberdeen junto do Imperador da Aústria, Lord Cathcart junto do Imperador da Rússia e Sir Charles Stuart junto do rei da Prússia. A Espanha tem Bardaxi e Petersburgo, Pizarro com o Rei da Prússia no Quartel General; o Rei da Sardenha tem o conde de Maistre em Petersburgo e o Cavalheiro Balbi no Quartel General. Lamenta que só Portugal não tenha nenhum Enviado junto àqueles soberanos.
O autor, Membro da Sociedade das Ciências, Belas-Letras e Artes de Bordéus, da Sociedade Filomática e fundador do Museu de Instrução Pública, aproveitando a paz que vigora na Europa, certo da protecção que o destinatário concede às artes, lembra a promessa que este lhe fez, na presença do Chevallier Raba?, Cônsul Geral de Portugal, aquando da sua passagem por Bordéus em que lhe prometia enviar alguns objectos de História Natural. Como o destinatário presentemente vive no Brasil, que pela sua posição é extraordinariamente favorável às pesquisas daquela ciência, solicita-lhe o envio de minerais, moluscos , aves e insectos para a colecção do seu museu. Declara o destinatário protector do seu museu.
Alerta para os recentes papéis públicos que confirmam a sua suposição em que o exército Austro-Bávaro, comandado pelo General Wrede, marchou para o Reno onde se deu a Batalha de Hanau. Confirmam também a entrada dos aliados na Holanda, tendo so seguidores da Casa de Orange feito a revolução sem que os franceses conseguissem cortar os diques para inundar o país conforme premeditavam. Com a proclamação do Soberano dos Países Baixos Livres, pouco falta para que a Holanda se ache completamente livre. A Suiça declarou a sua neutralidade, embora o autor julgue que não perderão a oportunidade de se unirem aos aliados para para recuperar territórios como Vallais. Tumultos em Brugges, Bruxelas e Anvers, sendo possível que também se registem no Brabante austríaco. A navegação do Weser está livre, a Alemanha livre dos franceses à excepção de algumas praças fortes. Bernadotte atacou Davoust no Elbo, obrigando este a retirar-se para Hamburgo. A Dinamarca apresentou proposta de negociação a Bernadotte que a recusou. Dissolução da Confederação do Reno e organização do "Landwehr" e do "Landsturm", tendo os príncipes que a compunham solicitado ao Imperador austríaco que se declarasse seu chefe, convite que o próprio declinou. Refere-se ao Tratado assinado entre a Aústria e o Rei de Wurtenberg, o príncipe de Metternich. Acha estranho que a Aústria e a Espanha não tenham nomeado Ministros para ambas as Cortes e que o Ministério inglês ainda não tenha apresentado no Parlamento o Tratado de Aliança com a Aústria. Todos os Soberanos e Generais em Chefe estão em Frankfurt, crê-se que a concertar a passagem do Reno e a entrada em França pela Suiça. Os franceses concentram-se em Anvers. Os austríacos estam em Bergamo na Itália; Veneza acha-se bloqueada e em Milão as autoridades preparam-se para decampar. Em Espanha o Quartel General foi instalado em São João da Luz; as novas Cortes e Regência já estão em Madrid; o exército espanhol está desorganizado, fazendo com que Wellington só possa contar com o auxílio do português. Avança com diversos cenários para as negociações de paz entre a França, a Inglaterra e a Holanda, referindo-se a temas como a a restituição das colónias francesas, o estabelecimento dos limites deste país, a restituição do Cabo da Boa Esperança aos holandeses. Acha que é possível que se faça a paz continental, mas a França e a Inglaterra devem continuar em guerra. Refere-se, ainda, à guerra entre a Inglaterra e os estados Unidos da América pelos direitos marítimos. Aconselha a que Portugal tenha negociadores hábeis para tratar com as outras potência em qualquer cenário possível, mas que não faça uso de procuradores estrangeiros. Alerta para o facto de a França querer a Guiana e a Inglaterra não hesistar em devolve-la. Os domínios portugueses estão a ser alvo de muita cobiça pelas potências aliadas, sendo esta a altura indicada para se formar novas e proveitosas relações comerciais. É necessário transpor o "muro" que separa Portugal das potências continentais e preservar a integridade e independência da Monarquia. Sugere que se procure estar sempre cautelosos e em paz com a Inglaterra, mas que se estreite as alianças com outros países europeus, facto que requer um corpo diplomático activo, inteligente, enérgico e trabalhador. Defende a residência do poder supremo na Europa, escolhendo-se governadores experimentados e patrióticos para os principais portos do Brasil.
Encontrando-se distante da Corte e sem relação com ela, recorre à protecção de António de Araújo para expôr o estado do Real Arquivo. Informa que há muito tempo que o mesmo anda em grandes estados interinos, desde a morte de José de Seabra, e sem que se atenda à qualidade das pessoas que são nomeadas para um cargo de tão grande importância. Participa que o Arquivo tem sido alvo de roubos. Dfende que a instituição deveria ser dirigida por alguém com prática de arquivos ao contrário do que até hoje se tem praticado onde "Fidalgos, e mechanicos, Frades, Clerigos, Militares, Ministros Superiores, e athe Corregedores do Civel da Ci[da]de tem sido Proprietarios deste cargo". Assim, atendendo à grande quantidade de trabalho atrasado, oferece-se para o pôr em dia.
Acusa a receção das cartas de 11 de Julho e de 9 de Agosto, e agradece a prontidão [de António de Araújo] nas respostas e o intersse em tudo o que lhe diz respeito. Comenta as razões do adiamento das viagens que deveria fazer à Alemanha e Holanda. Informa que ao contrário do que anteriormente se praticava os Oficiais da Secretaria dos Negócios Estrangeiros empregados em missões exteriores, já recebem os emolumentos conforme se constata pela situação de Rafael da Cruz Guerreiro e Teodoro José Pinheiro. Soube por este último que os Oficiais dos Negócios do Reino recebem sempre os emolumentos, pede por isso ao destinatário e ao conde das Galveias que lhe atribuam os 500 $ réis, pela lista da Secetaria de londres, como o fazem a Guerreiro, pois pretende manter e aumentar as suas colecções. Invoca os longos anos de trabalho nas missões de Turim, Paris e Londres. Verá pelas gazetas que Pamplonacapitulou, presumindo-se que Wellington passe agora à Catalunha para expulsar Suchet e assim poder entrar nas praças de Figueiras, Girona, Morvideo, Denia e no forte de ?Mongui? em Barcelona. Lord William Bentink partiu apressado para a Sicília devido à "inoculação forçada da constituição inglesa" fazem nos povos locais. As Cortes ordinárias em Espanha transferiram-se para a Ilha de Leão e dali para Madrid em virtude do surto de febre amarela que ali surgiu. Napoleão retirou-se por Weisenfeheerfurt, após o seu exército ter sido destroçado nas vizinhanças de Leipzig. Parece que se confirma que o exército Austro-bávaro, comandado pelo General Wrede, marchará para o baixo Reno de maneira a que o Bonaparte pode ainda não estar a salvo. Já forma apresentados no parlamento [inglês] os tratados assinados pela Inglaterra com a Rússia e a Prússia, anunciando-se outro com a Aústria, este ainda não ratificado. Comunicaram-lhe que estas potências acordaram em convocar imediatamente um Congresso, para o qual convidaram Ministros de todas as potências aliadas, com o fim de estabelecer o equilíbrio da Europa. Comenta as deliberações das outras três potências que pretendem reduzir o número de principados para formar potênvias intermédias, mas não sabe se farão o mesmo em Itália. Informa dos negociadores que a Inglaterra, Espanha, Sardenha têm em São Petersburgo e no Quartel General, e alerta para a necessidade de Portugal nomear algum. A Baviera restituiu o Tirol à Aústria. Informa das derrotas de Beauharnais, fazendo com que a Aústria ganhe terreno em Itália. Presume que Bonaparte vai escapar e soube por uma pessoa vinda do Quartel General que Bonaparte escreveu ao seu sogro, o Imperador da Aústria, a propor o fim da guerra, optando pelas propostas do Congresso de Praga. Informa que Paris está em grande confusão. A qualquer momento a Dinamarca pode juntar-se aos aliados. Remeteu um maço por Manuel Caetano Pinto.
Expõe ao [conde da Barca], única pessoa que tem nesse continente, para expôr o seu negócio. Informa que, tendo 28 anos de serviço e tendo criado de novo a cadeira de Diplomática, requereu a S. M. o cargo de Conselheiro da Fazenda, alegando o Alvará Régio de 1 de Dezembro de 1814, que prometia nomear para o posto de efectivos todos os lentes que possuisem dezoito anos de serviço. O seu requerimento veio à consulta ao Desembargo do Paço, tendo ficado surpreendidoquando lhe comunicaram que ainda não possuia antiguidade suficiente de tribunal. Esperando uma resolução desfavorável, pede a protecção do destinatário para o novo requerimento que dirigiu a S. M. declarando que pedia o despacho unicamente na qualidade de lente. Justifica este pedido com o facto do Desembargo ser sempre zeloso contra as prerrogativas dos lentes.
O autor, Ambrósio Joaquim dos Reis, informa ao marquês de Aguiar que recebeu por António de Saldanha da Gama o despacho de 26 de Junho de 1814 com os decretos relativos à sua nomeação para Conselheiro e Secretário Geral da Legação ao futuro Congresso. Pede ao destinatário que beije por si a mão do Príncipe-Regente por tão alta honra e mercê. Confessa que não estava preparado para assumir tal responsabilidade em razão do seu atual estado de saúde, e que só pensava em passar o resto dos seus dias a Portugal ou a outro local de clima temperado. Pede antecipadamente desculpas por quaisquer falhas que possa involuntariamente cometer.
O autor, Ambrósio Joaquim dos Reis, informa ao marquês de Aguiar que recebeu por António de Saldanha da Gama o despacho de 26 de Junho de 1814 com os decretos relativos à sua nomeação para Conselheiro e Secretário Geral da Legação ao futuro Congresso. Pede ao destinatário que beije por si a mão de S.A.R. por tão alta honra e mercê. Confessa que não estava preparado para assumir tal responsabilidade, em razão da sua precária saúde, e que só pensava em passar o resto dos seus dias em Portugal ou em outro local de clima temperado. Pede antecipadamente desculpas por quaisquer faltas que possa involutariamente cometer.
Participa ao marquês de Aguiar que já se encontra em Paris, aguardando apenas pela intimação que o autoriza a entrar no exercício do cargo que lhe está destinado.
"Prospecto do Tratado Provisional de Comércio com a Prússia".
"Providências essenciais para estabelecer uma correspondência pronta, regular e segura entre o nosso Ministério e as Missões diplomáticas portuguesas".
Memória, pedida pelos Plenipotenciários portugueses acreditados no Congresso de Viena, contendo as claúsulas que se devem inserir em qualquer concessão que S.A.R. queira fazer à Inglaterra em matéria de comércio de escravos.
Comenta as repercussões do Tratado de 1815 no Brasil; refere-se ao aproveitamento de emigração europeia, referindo como exemplo os 400 suiços, na sua maioria capitalistas, que vão para os E.U.A., continuam a aparecer publicações contra o "Registry Bill" e a Instituição Africana, esperando-se que os debates no Parlamento [inglês] sejam tremendos. Comenta as disposições do governo britânico para conter as revoltas dos negros das "West Indies", mais particularmente na Jamaica. As colónias inglesas da América do Norte estão em desacordo com a metrópole devido à religião. Os Estados Unidos pretendem unir a si o Canadá; a Irlanda encontra-se em estado de fermentação. Concluiu-se o Tratado entre o rei da Sardenha e o Dey de Argel, com mediação da Inglaterra; assinatura de um Tratado entre a espanha e a Holanda. Estimou as nomeações de Navarro para Viena e a de José Correia da Serra [para os Estados Unidos]. Refere-se à aplicação do seu plano relativo às comunicações entre o Ministério e as missões diplomáticas.
Leu com muito gosto nos jornais portugueses o discurso que a Câmara do Rio de Janeiro fez ao Soberano em agradecimento pela elevação do Brasil a Reino Unido ao de Portugal e Algarves; e com dobrado gosto a resposta que Sua Majestade deu à mesma Câmara, anuindo à súplica de se elevar um monumento à memória de tão grande benefício. O autor, aconselha que tal monumento se materialize na edificação de um Palácio para a residência real no interior do Brasil, onde se possa prever a fundação de uma cidade que possa ser a capital do Brasil e a qual deveria adoptar um nome análogo ao do Soberano que a fundar. Tal estabelecimento traria grandes vantagens comerciais e da comunicação interna, facilidade na defesa do país "fugindo ao Rio de Janeiro onde o calor impossibilita toda a actividade e energia dos trabalhos". Louva a oferta de subscrição que o corpo de comércio do Rio de Janeiro subscreveu para a fundação de estabeleciementos de educação pública. Aconselha a abertura de estabelecimentos mais utéis à cidade e outras capitanias como escola prática de minas, onde se pudesse leccionar matérias como a aritmética, a geometria, a química, a mecânica e mais ciências naturais aplicadas às artes; estabelecimento de sociedades económicas nas diversas capitanias. Critica a ideia de fundar uma Universidade no Brasil, sustentando que no estado actual da Monarquia uma basta, porque outra "Fabrica de bachareis e letrados" aumentaria a "turba miserrima" destes e roubaria braços à lavoura e às artes e produziria um grande número de "semidoutos ociosos e falladores, de poetas de agoa doce, de propagadores de ideias liberais e dos direitos do homem", gerando grandes problemas num país como o Braisl onde a maior parte da povoação é composta de escravos e de gente de cor. Seria fatal para o Brasil e para toda a monarquia pois cortaria o quase único fio de ligação entre a metrópole e o novo reino.
Remete um papel que lhe foi endereçado por António de Saldanha da Gama. O conde de Palmela já chegou a Londres, estando o autor a proceder à entrega das cópias do Arquivo do Congresso [de Viena], visto que grande parte dos originais foram pedidos por Francisco José Maria de Brito e pelo marquês de Marialva. Ainda não recebeu a comunicação oficial da sua nomeação, mas partirá em breve para Paris.
Participa ao conde da Barca que tendo entregue ao conde de Palmela o Arquivo da Legação ao Congresso [de Viena], concluiu todas as comissões de que estava encarregue em Londres. Assim, transferiu-se para Paris onde está pronto para entrar sem perda de tempo nas funções que lhe estão destinadas. O colega e amigo [Francisco José Maria de] Brito tem-no tratado com toda a franqueza e abertura. Felicita o dest. Pelo bom êxito da negociação do colega Navarro e manifesta a sua aprovação pela aliança matrimonial com a Augusta Casa de Aústria. Refere que o "proveito deste novo favor do Ceo" depende em muito do Agente Diplomático que S.A.R. nomear daqui em diante para aquela Corte. Expressa os votos de que este consórcio produza os resultados de grande satisfação para os habitantes das "duas principaes partes integrantes da Monarquia tão separadas huma da outra", preservando assim a integridade, tranquilidade, prosperidade e independência da monarquia lusa.
Agradece ao amigo [Antonio de Araujo] a carta de 12 de Janeiro onde lhe comunicava do restabelecimento da sua saúde. Saldanha informa que continua a passar sem grave incómodo e que a sua esposa escreverá em breve. O Congresso chegou ao fim e em dois ou três dias assinar-se-á o Tratado Geral. Era impossível para a delegação portuguesa fazer mais, visto que o Tratado de Paris condicionou em muito a sua prestação, tendo contribuído para o efeito a pouca consideração que as outras potências demonstraram por Portugal. Refere-se às divergências entre os membros da delegação portuguesa, que quase culminaram num escândalo, e que vão documentados nos ofícios que acabam de ser expedidos. Manifesta as razões da sua oposição à assinatura do Tratado e à votande em não integrar, o futuro, comissões em que estejam presentes indivíduos que têm acções e pensamentos diametralmente opostos ao seu. Como o marquês de Marialva acompanhará o Imperador, Saldanha informa que parte para São Petersbrugo, via ?Baaden? onde se demorará um mês e aguardará pelas instruções do destinatário. Gameiro tem trabalhado muito e sobre ele escreverá com mais vagar. Remete duas cartas de Miranda, compadre do destinatário, e uma do "nosso amigo [conde de] Pahlen", recentemente nomeado para Munique.
Nota em Cifra. Contém, em anexo, a descodificação da Cifra, onde são referidos as negociações encetadas com a França relativas à Guiana; às disposições do Tratado Geral relativamente ao tráfico [negreiro]; ao facto da espanha ainda não ter acedido ao Tratado de Aliança; ao reforço de Cayenna; e à remoção de Vitor Hughes.
Fragmento de carta. A mutilação, talvez premeditada, deste documento obsta à compreensão do texto. Contudo é possível apurar-se a assinatura do autor e ligeiras informações que surgem descontextualizadas devido aos rasgos.
Não deixa escapar a ocasião para se fazer lembrada ao amigo e repetir o quanto o seu silêncio a entristece e faz lastimar. Passam-se dias, meses, anos sem que chegue qualquer alívio para a nossa situação. Partilha os seus desgostos e sofrimentos. O Marido vive desesperado, e a autora tem de se submeter a mil privações para o socorrer, ainda mais agora que o bom Brito não pode prestar-lhe mais ajudas. Clama por justiça para este, que é o vosso melhor amigo, o mais devoto e zelozo em tudo o que diz respeito ao destinatário e aos seus; e por piedade para com o desafortunado Marido cuja conduta deve ser aplaudida. Ele apenas sofre por ser dedicado ao seu dever e ao seu mestre.Toda a sua esperança reside no interesse que o destinatário possa manifestar em favor dele. Sofre com o afastamento de d'Aarújo, com a falta de notícias e que faz com que os seus embaraços sejam a cada dia mais dificéis de suportar. Pede, ao menos, uma palavra de amizade e de lembrança para adoçar os tormentos. Pede para dizer ao médico [Vicente Navarro de Andrade], que o destinatário certamente viu, que não pode escrever hoje, mas que se recomenda e que aguarda com impaciência por notícias dele. Participa que deixou a casa de Bacq e informa do novo endereço, em Saint Germain, para onde deve escrever.
Justifica a falta de cartas. Participa que finalizou a sua longa viagem muito embora não tenha servido de nada a sua pressa em terminá-la conforme pode ser comprovado pelos ofícios expedidos. Infelizmente verificou-se o que o autor tinha profetizado quando ainda estava em Viena, sendo que todos os seus cuidados voltam-se agora para o comércio português em geral e em particular com a Rússia, que este ano atingiu elevados nivéis, parecendo dar ndícios de se desenvolver mais para o futuro. Informa que Lopes e Cunha formou uma casa portuguesa em São Petersburgo, Möller também aqui esteve em diligências com os seus correspondentes, e da Ilha da Madeira têm vindo algumas cargas. Todos os negociantes que ali se acham depositam as suas esperanças no destinatário e todos concordam com o autor de que é necessário proibir os navios possam importar géneros que não sejam da sua própria nação, por forma a estimular a navegação portuguesa, e que só aos portugueses seja lícito importar géneros de todas as nações, factor que deverá ser unido ao sistema de Direito de Porto, o que em poucos anos pode reerguer a marinha mercante, verdadeiro sustentáculo da marinha de guerra, único meio de se conservar o Brasil. Inúmeras pessoas têm perguntado pelo estado de saúde do destinatário, como a duquesa de Serra Capriola, a Princesa [Nathalie] Kourakin e a condessa de Litta - que apelidam o dest. de "la Fleur des Commandeurs". Tece comentários sobre a cidade. Foi apresentada à Imperatriz-mãe poucos dias após a sua chegada tal como a Grã-Duquesa Anna. Viveu em grande sobressalto pelo estado de saúde do destinatário, mas ontem Navarro comunicou-lhe que o mesmo já se encontrava em convalescença. Lamenta não receber notícias desse país desde Janeiro, e até o doutor Manuel Luís parece ter-se esquecido de si. Pede para que as cartas que lhe são dirigidas sejam enviadas para Londres ao cuidade de António Martins Pedra. Não tem grandes comentários a fazer sobre o infeliz estado em que a Europa actualmente se encontra, os quais só se pode encontrar em Paris. A cidade de ?Kanan? Foi quase toda devorada por um incêndio premeditado. Recebeu a tempo a decisão sobre a Sociedade de Jesus, cujos membros começaram aqui a manejar todos os meios possíveis para um ataque formal ao nosso governo. Informa da existência de um forte opositor ao comércio com Portugal, e que é liderado por Mr. de Gouriek, hoem teimoso e de poucos príncipios, prevendo que terá um àrduo trabalho para o convencer. Comenta a forma como os prisioneiros portugueses de 1812 foram aqui tratados, sugerindo que S.M. faça conhecer ao Imperador o seu reconhecimento, sendo esta a altura propícia; e que se deveria fazer o mesmo com o Príncipe de Korsakoff, ministro da Guerra, que fez os mais fortes esforços para que a tropa portuguesa fosse bem tratada, tendo inclusivé conseguido que os outros ministros tivessem mais consideração pelos negócios de Portugal. Sugere que se mande publicar alguns artigos sobre o Brasil em algumas gazetas alemães. Em P.s. relembra os negócios de Luís António de Abreu Lima.
Lamenta estar há quase um ano sem notícias do amigo de Araújo. Apesar de ser um tempo longo e difícil para aqueles que sofrem, não o acusa de silêncio, porque sabe que a crueldade actual embaraça a comunicação entre amigos, privando-a da única consolação que lhe resta. Não cessa de escrever, mas desconhce se as suas cartas chegam às mãos. Como Lobo participa que depois de 17 de Julho não recebeu qualquer notícia do destinatário, a inquietude aumenta, tornando a situação mais penosa e insuportável e sem fim à vista. Uma só palavra do destinatário, em que lhe assegurasse a boa saúde e amizade, mudaria a sua fortuna. Cita Goldsmith e refere que jamais esquecer-se-à do último adeus do destinatário, que por ser muito cruel não acredita que seja eterno. Vive desanimada e com muitos embaraços devido às desgraças do Marido, sendo obrigada a ir em seu socorro. Apenas pode disfrutar da amizade e ajuda do bom Brito, que também vive em dificuldades porque não recebe um soldo há três anos e meio. Ambos vivem muito retirados, sem sair, sem ver qualquer pessoa, à excepção daqueles que se queixam como nós e sobretudo "Madame Sousa l' Espagnole" que, também, passa por muitas agruras. À vista da conduta, lealdade e méritos do Marido, implora ao destinatário para que se esforce para que lhe paguem. Relembra a amizade e a bondade do amigo Brito para solicitar que se interesse por ele. A autora sabe que se o destinatário conhecer os tormentos por que passam, tratará de os adoçar. Em P.s. participa que Madame d'Aragon fala de vós como um Deus. Pergunta se recebeu as cartas por Vicente Navarro e se escreveu por Pinheiro Ferreira]. Refere-se ao "Docteur" [Pinto]. Assina "vale, ama, scribe".
Fazendo uso de todas as oportunidades para se fazer lembrada a António de Araújo. Recebeu cartas do bom amigo Lobo, mas ainda não chegou aquela que o destinatário enviou para o Doutor Pinto. Remeteu uma ao destinatário pelo ?irmão do amante? de Pinheiro [Ferreira] em que comunica a sua triste posição e os múltiplos embaraços com que se defronta, recebendo apenas o auxílio do bom e generoso B[rito], apesar de também se encontrar em dificuldades económicas. Como o destinatário diz que aprova a conduta de Brito, e que lhe rende justiça, tal como o Superior está encantado com ele, deveria ajudá-lo. O Marido, [Abraham Cappadoce-Pereira], [cônsul português na Dinamarca], vive uma situação desesperada, em virtude de nada receber desde há quatro anos. Apesar do destinatário lhe ter comunicado que se tinha hipotecado para defender os interesses de ambos, e de a autora acreditar nesta promessa e na sua palavra, como a mais sagrada, a verdade é que o tempo passa, sendo bem penoso para quem aguarda. Suplica-lhe para que não negligencie os amigos que, prestaram provas irrefutáveis de um sentimento sem limites, e necessitam, agora, da sua bondade, generosidade e protecção. Despede-se com um sentimento penoso, e certa de que uma palavra, uma carta do destinatário poderá fazer desaparecer estas nuvens tenebrosas que sobre eles se abatem. Em P.s. pede para escrever-lhe por via do Doutor Pinto.
Participa ao amigo de Araújo o seu desgosto pela partida do portador da carta, que muito sofreu aqui e experimentou todo o género de privações com uma constância de sentimentos e firmeza. Em muito agradece as atenções e os cuidados que ele lhe prestou durante a sua doença. Os seus talentos e o seu saber e o seu carácter honesto poderão ser de grande utilidade ao destinatário. Recorda os tempos passados, a profunda amizade e lamenta o imenso espaço que os separa e que faz com que ela seja esquecida porde Araújo. [Cita versos de Goldsmith]. Pede-lhe que demonstre que não é apenas a glória que ocupa os seus tempos, mas também os sentimentos de amizade e contradiga aqueles que dizem que se tornou apático sobre esse céu flamejante e já não olha para os amigos fiéis. Foi com um prazer incomensurável que soube da nova graça que o Soberano lhe concedeu. Refere que escreveu inúmeras vezes, mas desconhece se as cartas chegaram ao seu destino. Pede para, doravante, endereça-las a [D. Joaquim] Lobo [da Silveira] ou ao pai do portador desta, esquecendo a via do Dr. que tem sido negligente. Refere-se às dificuldades sentidas por Marido no cargo que o destinatário lhe concedeu [quando era Ministro Negócios Estrangeiros em Portugal] e que elas recaem sempre sobre si, ao ponto que se não tivesse a ajuda do generoso "Maître de Botanique" [Francisco José Maria de Brito], não saberia qual seria o seu futuro. Este também vive em dificuldades e já há três anos sem receber um soldo e uma carta do dest. o que muito o aflige. Até o "Platonique" reconhece a extrema dedicação e os riscos que [Brito] corre em nome da sua amizade por de Araújo, o seu mestre. Mesmo assim vive socorrendo os seus compatriotas e acredita que o seu dever é permanecer aqui. Oferece um pequeno alfinete, pedindo ao destinatário que o use como lembrança da sincera amizade. Desejava enviar algumas obras novas, mas deixa esta tarfea para Brito. O filho de Louis, afilhado do destinatário, está aqui. Pede para lhe dizer se P. está com o destinatário. [versos da Venality]. Ao fechar esta carta, recebeu com imensa satisfação a do destinatário datada de 9 de Junho. Aguardará a outra que falará sobre o destino de Marido. Já não aspira a rever o destinatário mas unicamente a que o seu coração conserve a amizade. Pede ajuda para os seus verdadeiros amigos e alerta para aqueles que o dizem ser, poderão sê-lo mas do "Ippogrife". Oferece uma nova estampa e espera que o dest. como amante das belas artes a coloque no seu gabinete.
Repete os rogos ao amigo [António de Araújo] para que Luís António receba algum ordenado a título de Secretário da Legação em São Petersburgo ou então para que seja considerado como Oficial em Comissão.
Fragmento de carta onde só se consegue apurar a assinatura do A. e algumas informações isoladas e incompreensivéis.
Justifica o lapso de tempo que esteve sem escrever com o facto da pouca segurança que existe no transporte de cartas. Há muito tempo tempo que não recebe cartas do destinatário nem de outra pessoa do Rio de Janeiro. Comenta o rumo dos negócios após a chegada da notícia do desembarque de Napoleão Bonaparte em França, notícia que inquietou excessivamente toda a gente, por ter sido um acto premeditado e de antemão preparado. Os gabinetes em Viena acordaram que a Europa não pode viver em sossego coma existência política do mesmo e por isso assinaram por unanimidade uma Declaração, que segue em anexo, que tinha por objectivo animar o Partido do Rei e combater o partido revolucionário, mas que falhou o seu objectivo visto que Napoleão chegou a Paris mais rápido que esta. Como consequência a Rússia, Aústria, Inglaterra e Prússia assinaram no dia 25 de Março um Tratado de Aliança ofensiva e defensiva, convidando as outras potências a juntarem-se, o que "parece haver sido sabiamente previsto por V.ª Ex.ª nas instrucções ostensivas que fes", achando-se o gabinete português em condições de aceder ao Tratado, cuja cópia remete em anexo. Traça diversas perspectivas da guerra e as suas consequências para Portugal. É necessário que o dest. autorize Ministros para as subsequentes convenções. Necessidade em nomear-se a tempo Plenipotenciários, devidamente instruídos para qualquer eventualidade, para figurar nas negociações de paz. Aniuncia a aproximação do final do Congresso e comenta os assuntos que ainda estão em discussão. Lamenta o facto de Brito ter atrasdao por dois meses a expedição dos despachos. Questiona-se pelo seu futuro após o final do Congresso sabendo que o Imperador Russo vai comandar o exército, e indo o Marquês de Marialva a acompanhá-lo, o que fará o autor em São Petersburgo e quais serão as suas tarefas. Na impossibilidade de negociar um novo tratado de comércio com os russos, negociou uma prorrogação do antigo, mandando para Lisboa uma cópia para ser publicada. Perdeu o seu trem que estava no Havre de Grace para ser transportado para São Petersburgo. Comenta a posição de Portugal no Congresso face às grandes potências. Informa que as tropas marcham de toda a parte, comandados pelo Duque de Wellington, pelo Prícipe Blucher, pelo Príncipe de Schartzenberg, pelo General Frimmont. Anuncia a chegada de Monteron, antigo amigo e companheiro de Talleyrand, incumbido de alguma missão. Lamenta as conspirações contra os Bourbons, perpetradas por pessoas da sua confiança, prevendo que os mesmos não voltarão a ter o sufrágio da nação, sendo uma opinião corrente a de será o ramo de Orleães a ocupar o trono francês. Tece comentários sobre o duque de Orleães. Pede ao destinatário que comece a tratar dos presentes para todos os Plenipotenciários que assinarem o Tratado. Pede que beije por si a mão do Príncipe Regente e do Príncipe da Beira. Faz-se lembrado à marquesa de Belas e ao colega José Egídio. Em P.s. de 13 de Abril, diz que a Europa está muito velha e em comparação com a América em desvantagem porque esta oferece mais quietação. Louva os inúmeros serviços de Gameiro, mas informa que o mesmo mutio tem sofrido. Pede ao destinatário Para não voltar a ser empregue em companhias porque repugnaria fazer o papel de acusador. Em um dos ofícios enviou a cópia de uma resposta dada ao célebre ofício do conde do Funchal pedindo a aprovação do destinatário para a mesma.
Agradece as expressões cordiais que o amigo [conde da Barca] lhe transmitiu na carta de 25 de Novembro, sobre os seus trabalhos do Congresso e sobre a Memória sobre Àfrica onde viveu quatro anos. Aguarda por notícias do restabelecimento de saúde do destinatário. Informa que tem desenvolvido todos os esforços no sentido de acelarar os nossos negócios, mas até agora o resultado é nulo. Critica a postura do soberano russo, que não confia em nenhum dos seus ministros e que estes são, em parte, os grandes responsáveirs pelo degradante estado da política russa. Lamenta ter sido nomeado para uma Corte onde retira poucos frutos do seu trabalho. A Princesa Kourakin está de partida para Itália, talvez para desafogar as mágoas que lhe tem causado a nora, uma das vítimas do fanatismo dos jesuítas. Saldanha cada dia se convence mais do préstimo do General Bettencourt, de quem já falou na última carta, e sugere que os seus inventos e máquinas sejam aplicados no Brasil onde poderão ter uma grande utilidade. Pede ao destinatário que lhe comunique se pretende empregar este General em algum trabalho visto que o autor Mantém com ele uma relação privilegiada.
Manifesta o seu agrado por ter tomado conhecimento do restabelecimento contínuo da saúde do amigo [conde da Barca]. Informa que muito tem sofrido com o frio rigoroso que aqui se faz sentir e ainda mais com as poucas condições que a sua actual casa detém. Queixa-se que não se fazem negócios, o que em parte se deve à influência do "Bichaço"; que ainda ninguém foi nomeado para esta repartição, nem parce que tal suceda num futuro próximo; que escreve aos encarregados da correspondência mas que não recebe qualquer resposta e por isso desconhece o caminho pelo qual deva tentar. Comenta a nova Tarifa que veio regular o sistema comercial da Rússia. Neste momento escreve um ofício sobre uma máquina de limpar a areia dos portos, que aqui se usa com grande proveito, e que poderia ser de grande utilidade nos portos de Pernambuco, Maranhão e do Pará; aobre um torno para perfurar as espingardas, e sobre uma nova maneira de construir os fornos de fundição com menor perda de tempo e de metais. Aconselha ao envio de alguns jovens de préstimo para se instruirem na construção de pontes e calçadas num instituto que ali acaba de ser criado. Lamenta que o doutor Manuel Luís o tenha abandonado. Realizou-se o casamento da Grã-Duquesa catarina, e em poucos dias realizar-se-à o da Grã-duquesa Ana, enquanto que o do Grã-Duque Nicolau será no Verão. As atenções do governo local estão centradas quase exclusivamente no aumento do exército o que tem causado graves problemas devido à grande despesa que acarreta. Aguarda pela chegada de Gameiro bem como pelas notícias do resultado final de todas as negociações.
Fragmento de carta. As mutilações premeditadas de que foi alvo não permitem a leitura do texto nem a leitura integral da assinatura. No entanto é possível recopilar alguma informação. Deduz-se que António de Saldanha da Gama referia-se a assuntos relacionados com o seu cargo [de Ministro Plenipotenciário na Corte Russa]; deduz-se que falaria sobre a partida de um Embaixador Extraordinário; sobre Luís António; ao projecto do Acto de navegação do reino Unido de Portugal, Brasil e Algarve que remeteu a Ambrósio Joaquim dos Reis; o torno de perfurar as espingardas; sobre a distinção honorífica recebida pelo conde de Pahlen; à licença peque pediu para poder deslocar-se à Madeira; sobre a construção de pontes de ferro que se tem construído em São Petersburgo e poderão ser aplicadas nas Capitanias do Brasil.
Agradece a carta de 27 de Abril, o que em si representa uma prova de amizade, bem como as informações sobre o estado de saúde do destinatário. Repete os agradecimentos pela conservação do ordenado do Conselho da Fazenda. Como tem muito tempo disponível, uma vez que não frequenta as sociedades, tem-se dedicado grande tempo a pensar o estado da monarquia lusa. Perante o estatuto de potência marítima bem como o facto das possessões lusas se encontrarem dispersas, considera urgente promover a navegação nacional, começando pela marinha mercante que deverá ser o sustentáculo da marinha de guerra, ainda antes de cessar o tráfico de escravatura, porque depois disto ser-no-à mais difícil competir com as nações estrangeiras. Por isso, elaborou um acto de navegação, com 11 artigos, o qual remeteu a Ambrósio Joaquim dos Reis para que ele fizesse algumas observações e o remetesse a V.a Ex.a.. Informa que a Inglaterra continua com firmeza e tenacidade a lutar pelo projecto da abolição da escravatura, tendo pedido recenetemente ao Embaixador russo em Londres, algumas instruções a este propósito para que se forme uma comissão para fazer cessar o tráfico, a qual deverá ganhar contornos de "cruzada" contra as nações que continue a praticá-lo. Considerando que aquelas potências que não têm interesse directo neste tema poderão alinhar com a Inglaterra, sugere que se use da liberdade de imprensa e a multiplicidade de gazetas que se oferece em Londres para defender a nossa posição, tendo inclusivamente já comunicado com Freire e com Reis para que fizessem as diligências necessárias. Comunica que Mr. de Casamaior, antigo encarregado de negócios em Portugal, encontra-se em São Petersburgo como Secretário da Legação Britânica mas deseja ser nomeado para o Brasil. Critica o grande papel, que o mesmo tem escrito, sobre o estado do Reino Unido de Portugal, sugerindo a consevação da união e a vinda de S.A.R. para a Europa e a criação de uma regência no Brasil, a permanência de uma esquadra briânica no Rio para manter a ordem, entre outras particularidades. Remeterá em breve uma cópia deste escrito visto que o autor prometeu de lhe mostrar o referido plano antes de o remeter a Mr. Canning para ser debatido pelo Gabinete londrino. O imperador [russo] está de partida para Varsóvia; a mania militar continua. Está de tal forma desgostoso pelo facto de esta Corte ainda não ter tomado o luto pela morte da Rainha [D. Maria I], que ver-se-à na obrigação de fazer algumas observações duras. Comenta a conduta deste governo para com os Estados Unidos, receando um mau fim para para os negócios de ambos. Agradece a atenção disponibilizada a Luís António de Abreu e Lima, rogando para oque o destinatário promova o seu despacho, uma vez que o mesmo tem conhecido merecimento e poderá ser útil ao serviço real. Informa que o tem aplicado no estudo das máquinas de vapor, tão necessárias ao Brasil, passando depois às pontes de ferro, seguindo-se todas as máquinas e manufacturas que existem nesta cidade e vizinhança. Enviará para Lisboa o trono para os canos de espingarda, "invenção utilissima, para dali ser remetido para o Brasil. Roga ao destinatário que lhe envie o quanto antes a comuincação oficial da dispensa que solicitou a S.A.R. para poder deslocar-se à Madeira tratar de assuntos pessoais. Aguarda a chegada do conde de Pahlen, que veio com liença de Munique e encontra-se agora em Riga. Em P.s. informa da chegada do referido conde que muito se recomenda ao destinatário.
Fragmento de Carta. Mutilada, talvez premeditadamente, é possível compreender alguns assuntos que A[ntónio] de Saldanha da Gama comunica ao amigo conde da Barca, Ministro da Marinha e do Ultramar e Conselheiro de Estado no Rio de Janeiro: os ofícios enviados; o "Bichasso"; as transações comerciais; os Jesuítas; a Arquiduquesa Leopoldina; se D. Miguel Pereira [Forjaz] já teria enviado para a Corte do Rio de Janeiro o torno para as espingardas; aguarda pela decisão de Sua Majestade para então enviar os restantes inventos; a união do reino do Brasil a Portugal.
Fragmento de Carta. Mutilação na diagonal, provavelmente premeditada, impossibilitando a leitura e a compreensão do texto. No entanto, é possível entender alguns dos assuntos que António de Saldanha da Gama comunicava ao [amigo conde da Barca]: escravatura; a expedição ao Rio da Prata para repelir completamente o odioso governo de Espanha; a uma Memória enviada juntamente com um Ofício; tem recebido grande apoio de Lebzeltern; vive isolado mas já habituado devido à sua longa residência em Àfrica e América; à carestia em São Petersburgo; aos ordenados pagos pelas Cortes da Sardenha, Aústria, Holanda e Nápoles pagam aos seus Ministros em São Petersburgo.
Fragmento de carta. A mutilação, talvez premeditada, do documento permite apenas a leitura integral da assinatura, enquanto que do texto apenas se consegue compreender algumas passagens em que se nota que os objectos tratados prender-se-iam com a receção de cartas; a nomeação de um embaixador; com a Ilha da Madeira; referência a José Francisco Braancamp; e outros aspectos ligados à vida na Corte russa.
Fragmento de carta. Mutilada na diagonal, torna impossível a leitura parcial da assinatura e compreensão do texto. Todavia, deduz-se que António de Saldanha da Gama referia-se à marinha mercante portuguesa; à licença que pediu [para se deslocar à Madeira] e que parece ter sido esquecida "de proposito"; ao ordenado atribuído a Luís António na nova comissão de que está encarregue.
Participa que lhe informaram da assinatura do Tratado de Paris pelo conde do Funchal e da expedição de uma Esquadra inglesa [ao Rio de Janeiro] para transportar a Família Real [para Lisboa], o que contraria as instruções que recebeu no Rio de Janeiro. Relembra o seu ofício, enviado por via mercantil, sobre o Príncipe-regente do Reino Unido e ao seu ministério e à opinião geral no que diz respeito à transferência da sede de governo para a Europa. Acredita que S.A.R. não tomará essa decisão antes do término do Congresso [de Viena] e que para tal não necessitará de se socorrer de navios estrangeiros. A expedição do correio para Viena e Paris não lhe permite ser mais extenso, mas aproveita ainda para comunicar da sua defesa do regresso de S.A.R. a Lisboa, perante Mr. Hamilton, 2.º Secretário dos Negócios estrangeiros britânico, enquanto que o conde do Funchal decidiu optar pelo silêncio. Demonstra a sua satisfação pela promoção de ?António? Joaquim dos Reis e muito desejaria que ele o acompanhasse para São Petersburgo. Partirá de Inglaterra por volta do dia 28 do corrente. Lamenta não receber notícias do Brasil, nem do estado de saúde do destinatário Uma vez que estava tão incomodado. Pede que o recomende aos Kieckhoefer, a Manuel Luís e a José Egídio e família.
Comunica que a paz está feita e participa a [António de Araújo] o desejo em comunicar-lhe o meio para salvar a honra de duas pessoas que estão comprometidas pelo efeito da intriga. Pergunta ao destinatário se estima Silvestre, que está muito doente, e espera que ele não mais venha a ter a sua imagem espoliada. Recebeu uma carta da sua pátria ficando a saber que a sua mãe e filhos vivem.
Envolta em mágoas e aflições, diz que nenhuma delas resistirá perante uma linha escrita da mão do bem amado amigo [António de] Araújo. Aguarda com impaciência por notícias visto que a última carta recebida data de 7 de Abril. Acredita, tal como o destinatário, que o tempo e a distância que os separa em nada alterou a amizade e ternura existente, e que nada mais importa a não ser o facto dele ser, hoje, a mesma pessoa, com a alma, o espírito e a amabilidade que lhe conhece. Acredita que existirá oportunidade para um reencontro, tal como acredita que ainda vive na lembrança de Araújo. Só esta certeza poderá fazê-la recuperar a felicidade. Apenas consegue sobreviver graças ao apoio de [Francisco José Maria de Brito], o "Maître de Botanique", que é quem a consola e sustenta a sua coragem para suportar os tormentos, ainda não recebeu o seu soldo e endivida-se para poder viver. Tenha piedade de Marido, [Abraham Cappadoce-Pereira], que vive em desgraça e se não lhe pagam não sabe o que poderá suceder-lhe. A devoção e o zelo dele pelo destinatário não tem limites e não é justo que dele não se lembre. [Joaquim] L[obo da Silveira] já chegou ao seu destino com a mulher e os filhos. [João Paulo] Bez[erra de Seixas] nunca mais respondeu à carta. Refere-se ao jardim.
Justine Pinheiro née de Leidholdt, agradece ao destinatário por lhe ter comunicado, através de Sampaio, que dentro de dias o decreto será assinado por S.A.R.. Satisfeita com o conteúo do mesmo, agradece o reconhecimento do destinatário a respeito do homem honesto que é o seu marido. Refere a esperança em ver, da sua casa, onde tem a mais bela vista do Rio de Janeiro, o barco que lhe dará a possibilidade de receber a sua mãe e filhos. Relembra as cartas que recebeu do destinatário.
A autora, née de Leidholdt, agradece a carta recebida e comunica a mudança de casa para a o Campo de Santa Ana. Relembra os sentimentos de amizade transmitidos por [António de Araújo] em casa de Madame Oferill e, enquanto mulher de Silvestre, testemunha pela amizade que ele dedica ao destinatário e acredita que se os seus permanecem imutáveis encontrará um momento entre as suas ocupações para se deslocar a casa da autora.
Refere que se as notícias que se as notícias que chegam são verdadeiras, o horizonte deve brilhar para o amigo de Araújo. No entanto, sustenta que jamais poderá alegrar-se com a desgraça dos outros. Agora que a tranquilidade é restituída ao destinatário e que a saúde melhora, fazendo com que divida o seu tempo entre as musas e as amizades, o destinatário não poderá deixar de se ocupar dos amigos que estão ausentes. Se dependesse de si, o destinatário não ficaria um ano e meio sem dar notícias, ainda mais quando tem provas que outras pessoas ocupam o imaginação do destinatário. Esta convicção faz com que frequentemente derrame lágrimas de sangue, ainda que conviva frequentemente com a sua rival. Ela viu o seu retrato a ornar todos os quartos da casa da autora. Esta rival foi mãe há pouco tempoe vive, agora, no bonito lacal onde a autora passou bonitos momentos com o destinatário, com o bom Lobo e o ingrato P. Espera que ela não tenha intenção de destruir o belo jardim que tanto tempo levou a construir. Lembra que o "Maitre de Botanique" vive com privações para poder auxiliá-la. A sua alma é nobre e a ele deve a sua existência. Pede ao destinatário que auxilie o marido que vive desgostoso devido a dificuldades financeiras e ao estado de saúde precário. Pede para transmitir ao médico viajante [Vicente Navarro de Andrade], a quem não lhe é permitido escrever agora, os seus votos de estima e que o pequeno "choux" encontra-se bem.
Acusa a receção da carta do amigode Araújo, o que a fez sentir a mais viva alegria. Após um ano e meio de silêncio, com todas as angústias e desespero, é uma dádiva rever a sua letra e as suas expressões de ternura, transmitidas na carta enviada por Navarro. Se o destinatário conhecesse a dimensão da sua alegria não seria tão avarento a escrever-lhe. A saúde do destinatário preocupa-lhe, e agradece ao céu por ele ter um médico amigo [como Manuel Luís Álvares de Carvalho], a quem reconhece como um benfeitor a quem deve mais que a própria vida. O [Abade] Correia [da Serra] já deve vos ter feito chegar a carta onde refere a situação aflitiva em que vive o vosso dedicado amigo [Brito] e os negócios do Marido. Implora por eles, e refere que tem confiança em que a amizade e caridade do destinatário se empenhará de uma forma eficaz em benefício de ambos. Apesar de escrever-lhe frequentemente, nada sabe de L[obo]. Pede por notícias frequentes, o que poderá ser feito or C[orreia]. Despede-se citando versos de Metastasio, poeta preferido do destinatário.
Apesar de não ter mais do que um pequeno momento para escrever a [António de Araújo] e embora um pequeno bilhete não seja suficiente para dizer tudo, dá graças a Deus por, ao menos, conseguir ter a oportunidade de se fazer lembrada e de lhe pedir para que se não esqueça dela. Ironiza com a recente descoberta, esperançada em poder, um dia, utilizar este meio para revê-lo e abracá-lo, para felicitá-lo pela promoção do seu amigo médico e admirar o atelier do destinatário de onde se propagam as artes e as ciências no novo mundo. Se tal fosse possível, aproveitaria, ainda, para conhecer e agradecer ao seu médico [Manuel Luís Alvares de Carvalho], por ter tratado do espírito e saúde do destinatário. Madame de Stäel, com a idade que apresenta, casou com um jovem que perdido de amores rumou com ela para a Turquia. Pede ao destinatário para que se recorde das desgraças do Marido, [Abraham Cappadoce-Pereira], para que, ao menos, lhe escreva umaspalavras de consolação. Vive inquieta porque as cartas que [Joaquim] L[obo] [da Silveira], [Ministro Plenipotenciário em Estocolmo], lhe anunciou ainda não chegaram.
Manifesta a sua alegria por ter recebido uma carta do amigo de Araújo, constatando que ele continua generoso, bom e justo, que permanece digno da estima e do culto que o seu coração lhe dedica. Agradece as diligências desenvolvidas em favor de [Francisco José Maria de Brito], o "Maître de Botanique". Ninguém é mais digno e mais devoto do que ele, que a ampara nas desgraças e consola nos infortúnios. A amizade que ele tem pelo destinatário está para além de qualquer palavra, de qualquer descrição. A autora, implora por protecção para o marido, [Abraham Cappadoce-Pereira], [Cônsul português na Dinamarca], que vive bem desgostoso e cujos males recaem sobre si. Recomenda ao amigo [Domingos] Borges [de Barros], [futuro Visconde da Pedra Branca], pede para dizer a V[icente] N[avarro de Andrade], [Médico], que a sua amizade por ele jamais cessará, que se compadece muito com o seu sofrimento, e que tem visto o "petit choux". Vê frequentemente a sogra de Rolando, que fala de Araújo como deum deus. O "Platonique", [Morgado de Mateus], continua furioso com o dest. e tudo parece que se deve a uma carta em que Araújo dizia mal dele e que lhe foi mostrada pela [sua esposa] o "Vulcain d'Adéle", [Adelaide, Condessa de Flahaut]. Insurge-se contra a pérfida e ingrata conduta de Renh[ardt] que vos deve tudo. Relembra que o honesto Gildemester tinha razão quando advertiu o destinatário sobre este homem indigno.
Envia pelo portador desta o primeiro Tratado assinado em Viena, justificando a sua opinião de que Portugal não foi prejudicado nele, comentando a Convenção que o antecedeu em que foram discutidos pontos como a indemnização que a Inglaterra deve a Portugal pela tomada de Navios portugueses. No Tratado, realça a anulação do Tratado de Aliança de 1810 bem como dos seus artigos secretos; a renovação do artigo do Tratado de Cromwell; a disponibilização das rendas da Ilhas da Madeira e Açores e da ?ursela?, de Pau Brasil e Marfim, acabando-se assim a administração de Londres; em troca das concessões do governo português como a cessão do tráfico de escravatura a norte do equador; a inevitável cessão da Guiana já estipulada no Tratado de Paris. Comenta possibilidade de se anular os tratados de Paris, de Aliança e de Empréstimo e dos artigos secretos de cada um deles. Comenta a negociação que antecedeu a assinatura do Tratado. Comunica que Mr. de Talleyrand propõe que S.A.R. deva elevar o Brasil a Reino, ficando com o título de Reino Unido de Portugal e Brasil, fixando o monarca a sua residência definitiva no Brasil e enviando o seu filho como Vice-Rei para Portugal. Sugere que S. M. se declare sem perda de tempo príncipe-regente do Reino Unido de Portugal e do Brasil, pois seria reconhecido por todas as nações e defenderia por mais algum tempo a união destas duas partes da monarquia e fortificando as relações comerciais de ambos, o que é desejado por todas as potências da Europa. Alerta para a possibilidade de ser parado o pagamneto do Corpo Diplomático português com a provável extinção da administração de Londres, sugerindo em lugar desta os Agentes do Banco do Brasil. Informa da necessidade em manter Gameiro até finais de Abril. Refere-se às negociações com Lord Castelreagh sobre os dois famosos artigos secretos referentes ao corte de madeiras e sobre a admissão de navios de guerra sem número. Refere-se ao facto da anulação do Tratado de Comércio de "infeliz memoria" poder alterar o plano do tratado de Comércio que deve negociar com a Rússia, agurada por isso por novas instruções para poder retomar o que já havia negociado e constava da Convenção que já enviou ao destinatário Como o marquês de Marialva acompanhará o Imperador em finais de Abril, data provável do final do Congresso, o autor demorar-se-à em Viena até finais de Junho, partindo depois para São Petersburgo.
Nota em cifra referente às indemnizações que obtiveram de Castlereagh devido ao apresamento [de navios] à Guiana, à abolição da aliança a troco da abolição imediata pelos portugueses do tráfico de negros a norte da linha [do Equador]. Possui a interpretação autógrafa de Francisco José Maria de Brito.
O autor, António de Saldanha da Gama, remete ao amigo António de Araújo uma notícia cifrada por lhe parecer importante que o destinatário tenha conhecimento do seu conteúdo.
Informa que com a não ratificação do Tratado de Paris por S.A.R. chegou o momento mais crítico das negociações, uma vez que tal procedimento poderá excluir Portugal da Comissão das Potências signatárias do mesmo. Ignora os motivos da repulsa da Inglaterra e remete o amigo [António de Araújo] para os ofícios que tem expedido por forma a tomar conhecimento da posição da França e da Rússia. Refere-se ao artigo 10.º do referido Tratado e à pouca força do autor para exigir da França ou da Inglaterra a indemnização devida pela restituição da Guiana aos primeiros. É desejável que S.A.R. dê a conhecer a sua posição sobre o comércio da escravatura, para que o Reino não seja levado pela torrente. Alerta para o facto de as Cortes vizinhas terem enviado os seus Ministros dos Negócios Estrangeiros, enquanto que a Corte portuguesa não o fez, tornando-se quase impossível competir com Ministros com tão amplos poderes. A responsabilidade dos enviados portugueses é, por este motivo, elevada ainda para mais se tivermos em conta a distância da Corte para o palco das negociações. Lamenta que o resulatdo das negociações possa não agradar a todos, mas era necessário que todos tivessem consciência que "nós temos mais a desfazer do que a fazer".
Informa que as cartas de do amigo Manuel Luís, de 24 de Agosto, e a de António de Araújo, de 12 de Setembro, acalmaram a sua inquietação sobre o estado de saúde deste último. Comunica que não escreveu depois de ter saído de Londres, devido à falta de segurança dos correios estrangeiros. Descreve a viagem por mar do Rio de Janeiro até Inglaterra; descreve os trabalhos que empreendeu em Inglaterra, como as conversações para combater a asseção do gabinete inglês que sustentava que S.A.R. tinha pedido dinheiro e o envio de uma esquadra para o seu transporte para Lisboa. Refere-se à sua jornada rumo ao Congresso [de Viena]; comenta as consequências da não ratificação por Portugal do Tratado de Paris e relembra a importância do artigo 10.º; tece comentários sobre o grupo de plenipotenciários portugueses; à pouca vantagem da cessão da Guiana e à indemnização que Portugal tem direito; rejeita a possibilidade de se pedir uma indemnização à Espanha devido à restituição de Olivença; a abolição do tráfico de escravatura e as suas implicações no Tratado de Comércio de 1810; as conversas mantidas com Castelreagh a este respeito; faz uma análise sobre os comportamentos dos Plenipotenciários das potências principais, onde sobressaem os nomes de Metternich da Aústria, os condes de Nesselrode, Razomouski e Stakelberg da Rússia, Lord Castelreagh, Lord Stewart, Lord Catehart e Lord Clancarty da Inglaterra, o Príncipe de Talleyrand, o Duque Dalberg, os condes de Latour du Pin e de ?Noialles? Pela França; o Príncipe de Hardenberg e o Barão de Humboldt pela Prússia; Lovvelheim que representa a Suécia; D. Pedro ?Sobrador?. Comenta a problemática questão da Polónia e a da Saxónia; a questão interna da Alemanha, para a qual foi criada uma comissão específica; outra comissão para a união de Génova à Sardenha; outra para as questões da Toscana, Parma, ?Plasencia?; outra comissão para a livre navegação do Reno e do Scalda. Informa que pela demora do marquês de Marialva achou oportuno entregar as suas credenciais a Sua Majestade Imperial e devendo finalisar a prorrogação do Tratado de Comércio em 7 de Junho, era oportuno fazer alguma coisa para que o comercio do Brasil fosse contemplado. Em P.s. de 14 de Dezembro anuncia a chegada do "nosso Gameiro" tendo recebido, por ele, a carta do destinatário. Em 24 de Dezembro, comunica que Castelreagh recebeu a resposta do governo inglês sobre o Tratado de Comércio de 1810. Lembra que não foi expedida ordem para a administração de Londres para o pagamento dos seus ordenados da Missão da Rússia; lembra Luís António d'Abreu Lima para secretário daquela legação. Em 25 de Dezembro anuncia que Castelreagh rompeu as negociações que havia iniciado com os Plenipotenciários portugueses, pretendendo levar o negócio a Comissão, muito embora Saldanha acredite que ele terá motivos de sobra para se arrepender. Em 28 de Dezembro, trabalha na minuta sobre a Comissão das Etiquetas para depois remetê-la; enviará também uma exposição da sua autoria e de Gameiro sobre a questão da Escravatura. Elogia as intervenções de monsieur de la Harpe a favor dos negócios de Portugal. Em 30 de Dezembro, pede ao destinatário que entregue ao Príncipe da Beira uma caixa com duas rebecas. Em 1 de Janeiro deseja uma ano novo venturoso e informa que a Prússia não quer ceder às suas intenções sobre a Saxónia tomando os negócios uma feição mais hostil. Acaba de receber a notícia de Lord Castelreagh da conclusão do Tratado de paz entre a Inglaterra e os Estados Unidos.
Confessa ao amigo de Araújo que os seus dias são tormentosos, que as dores não cessam. Queixa-se que há um ano e meio que não recebe notícias dele e que este silêncio é terrível para a autora e para o amigo [Francisco José Maria de] Brito que, no entanto, não cessam de lhe escrever mesmo desconhecendo se elas lhe chegam. Vivem em Paris retirados, como se fosse num deserto, e a única sociedade é a de [Abade] Correia [da Serra] mas que vai partir dentro de dois dias. Ele será o portador desta carta e apesar de ficar em Filadélfia disse à autora que poderia escrever de coração aberto pois a carta chegaria ao seu destino sem entraves. Lamenta a saída de Correia de Paris, onde ele, fazendo uso dos seus conhecimentos, honrou o título de vassalo português e ganhou a estima de todas as pessoas das Letras. Brito está deprimido por ver partir aquele que muitas vezes foi o seu conselheiro, e tanto que desejava igualmente partir, mas tal é impossivel por estar há quatro anos sem soldo, desde a ordem que a embaixada recebeu para partir, e ser tratado com uma injustiça revoltante enquanto que a facção de [D. Rodrigo de Sousa Coutinho], o "Ippogrifo", triunfa. Até o "Platonique" [Morgado de Mateus] paga com querelas a amizade e o interesse que Brito dispendeu aos seus negócios, numa postura em tudo idêntica àquela que o seu amigo teve em Londres consigo. Solicita ao destinatário que interceda a favor do Marido que aguarda no seu posto por ordens e que sente muitas dificuldades para viver devido à falta de pagamento. Sem o auxílio de Brito não conseguiria viver. [Vicente] Navarro [de Andrade] e [Domingos] Borges [de Barros] bem podem testemunhar pelos inúmeros serviços que Brito presta a todos os compatriotas, como a Lima cirurgião português que faleceu há pouco tempo; como a [Francisco] Manuel [do Nascimento] que com 80 anos vive na miséria; como a ajuda prestada à família Branco para sair do país, ficando apenas o pai [José António dos Santos Branco]. Pede justiça para Brito, pede para aplicar todo o poder junto do Príncipe em benefício dele. Em P.s. escreverá outra carta que seguirá por Mr. Labenki. Estasegue por Correia, mas teme que o "Ippogrifo" a intercepte. Recebeu carta de Rodrigo Navarro que lhe assegurava não acreditar que pagassem a Brito. Esta é uma injustiça gritante. Oferece a silhoueta de [Marquês de] Marialva. Uma palavra da sua mão será um bálsamo para a sua melhor amiga.
Apesar de ter acabado de escrever uma longa carta para o amigo de Araújo, a qual deverá ser entregue por Mr. Labenki, que parte na mesma fragata que [o Abade] Correia [da Serra], não resite a escrever novamente por este útlimo. Lamenta o silêncio do destinatário que a faz infeliz e aumenta o tormento da sua alma. Vive descansada em relação à saúde do destinatário, mas receia por destinatário devido às notícias que por aqui circularam relativas às falsidades perpetradas pelos inimigos do destinatário. Lamenta que outros recebam cartas e eles [Suzanne e Brito] estejam há um ano e meio sem receber uma palavra, apesar de lhe escrever em todas as ocasiões possíveis. Este silêncio é um mistério e recusa-se a acreditar que António de Araújo tenha deixado de ser o amigo sincero, pleno de honra, de delicadeza. Relembra que o Marido, por ser fiel ao seu posto e ao serviço do Rei, sacrifica a sua vida e que necessita do auxílio do destinatário porque há quatro anos e meio que não recebe o soldo. Pergunta se deixará [Francisco José Maria de] Brito, vosso amigo perfeito, morrer vítima dos inimigos. A amizade que ele tem pelo destinatário acarreta-lhe muitas inimizades. Não existe português tão digno deste nome como Brito que, mesmo na situação em que se encontra, socorre todos os infelizes compatriotas que o procuram, como a família Branco que partiu, ficando apenas o pobre velho [José António dos Santos Branco]; como o pobre [Francisco] Manuel [do Nascimento], [Filinto Elíseo], com 80 anos, vive apenas devido aos cuidados de Brito; a Madame de Aragon. Suzanne encontra com frequência a infeliz Madame de Sousa l'Espagnole. Depois de conviverem em sociedade durante longo tempo é com profundo desgosto que vê [o Abade] Correia [da Serra] partir. As gentes das letras e os sabedores lamentam-no profundamente. Brito desejava acompanhá-lo mas não o pode fazer devido às dívidas contraídas nestes quatro anos em que não recebeu um soldo. Soube há pouco que aqueles que não forem à Inglterra nem ao Brasil não serão pagos. Pede para interceder junto do Príncipe por Brito um dos mais fiéis servidores do Soberano. O "Platonique" é sempre seu inimigo inveterado, o seu ódio e rancor não têm limites. Despede-se com versos [da sua autoria].
Expressa a sua dor, a sua tristeza por escrever ao amigo de Araújo e nunca receber resposta. Mantém viva a esperança de receber uma linha escrita da sua pluma e acredita que esta demora não depende do dest. que nunca perde de vista os amigos dedicados e que vivem desgostosos. Nem mesmo as notícias que raramente e indirectamente recebiam sobre o destinatário chegam. É impossível exprimir o quanto o desgosto os oprime e aumenta a dor. Está segura que a carta que enviou pelo [Abade] Correia [da Serra] chegou às suas mãos e por isso não repete tudo o que aí disse, tal como na outra enviada em mão de Mr. Labenki. A esperança está prestes a terminar e sem a ajuda e bondade do amigo B[rito] tudo será pior. O partida de Correia aumentou as nossas mágoas e a sua companhia é uma verdadeira perda, tal como a sua longa viagem é cruel na idade em que ele se encontra. Espera que o destinatário não a abandone completamente e conserve invioláveis a amizade e os sentimentos que os une.
Como o amigo comum escreve ade Araújo, a autora, não pode resistir a juntar duas palavras à carta, para repetir as expressões de uma amizade que só terá fim com o fim da sua vida. O horizonte parace começar a clarear para o destinatário, porque já não tem de combater o "Ippogrifo" [conde de Linhares], [falecido em 26. 02. 1812 no Rio de Janeiro], e como tal está certa de que surgirão dias mais alegres para o destinatário. Relembra ao destinatário as necessidades do Marido, nem tão pouco a sua situação penosa e cruel. Escreverá, em breve, mais longamente, sobre este assunto, mas assegura que sem o auxílio do dedicado amigo do destinatário [Brito] jamais teria consolação.
Esperava que [João Alberto] Kantzow pudesse enviar-lhe notícias do dest., mas ele não conseguiu obtê-las senão verbalmente. Soube ainda por Lobo que a sua saúde está perfeita, que passa bem, o que lhe causou alegria e descanso à alma que vivia atormentada há tantos meses. Mas, receber estas seguranças pela sua mão, seria um bálsamo para as suas dores. Lamenta não receber uma única linha do amigode Araújo e que este silêncio provoca-lhes uma grande tristeza. Continuará a escrever em todas as ocasiões e por todos os meios possíveis. Relembra as privações e os sofrimentos que o amigo Brito sofre desde há quatro anos, e a promessa do destinatário que o protegeria. A rectidão e afeição de Brito exigem que o destinatário não se esqueça dele. Prometeu também proteger o Marido, mas em ambos os casos as provas de amizade não chegam. Desconhece se as suas cartas chegam ao dest., e suplica-lhe que responda, que lhes dê alegria e tranquilidade. Despede-se citando [Edward] Young. Em 7 de Setembro, referindo que esta carta está escrita há mais de um mês e sem ter meios de a expedir. Ignora se o destinatário já tomou alguma providência em benefício deles. Assegura que o silêncio dele é o pior de todos os males e de todos o mais insuportável. Em nome da amizade, escreva-nos.
Não sabe exprimir o que sentiu ao receber um bilhete assinado pelo amigode Araújo mas escrito por outra mão. Sabe que ele esteve perigosamente doente, mas agradece a Deus que, através dos cuidados de um hábil médico [como Manuel Luís Álvares de Carvalho, conservou-lhe a vida para felicidade da pátria, do soberano e dos amigos. O amigo Brito explicou-lhe o bilhete e dele verificou que os sentimentos permanecem imutáveis. A pobre Antoinette que tinha casado há dez meses com um digno e bravo homem [o Chevalier Bertola], pedreu o amrido devido a uma doença. O excelente Brito, com a sua amizade e seus conselhos, é quem tem prestado apoio à autora nestes momentos e incutido coragem para suportar estes momentos cruéis. É o seu anjo consolador. Agradece ao destinatário por ter feito com que pagassem o soldo a marido, possibilitando-lhe pagar parte dos empréstimos à autora. Viu Lobo com a sua charmosa esposa e lamenta não poder recebê-los como desejava. A nomeação dele para Berlim fê-lo infinitamente feliz, tal como merece ser. S[uzanne] vive deprimida devido ao estado de saúde da amiga íntima a Madame de Sousa de Gracia Real. Endereça os votos de um feliz ano novo e manifesta o seu sentimento de como é glorioso ter a sua amizade.
Apesar de conhecer as dificuldades em receber novidades, lamenta o quão cruel é ver o tempo passar sem receber uma única linha daqueles que ama. Conhece pessoas que recebem notícias do país onde o destinatário se encontra, mas como não inveja a sorte deles, sofre em silêncio pela actividade dos amigos deles e da preguiça do meu. Se o destinatário soubesse a alegria e a felicidade em receber uma carta sua não seria tão àvaro a escrever e não tomaria esta actividade como prazer mas sim por dever. O embaraço aumenta á medida que o tempo avança. Marido está verdadeiramente queixoso e a autora partilha a sua sorte. L[obo] deu a esperança ao marido de que seria pago em breve. O pai de "Rolando" fez o mesmo. O Mestre de Botânica ainda não recebeu nada e é homem e coragem. Se não fosse ele, a autora não sabe como viveria e que contrariedades experimentaria. Vê frequentemente o bom e amável Mr. de M[arialva], a Madame d'Aragon, que adora-vos, e Madame de Souza. Pergunta ao destinatário se viu o Médico [Vicente Navarro de Andrade]. Despede-se com versos [de Metastasio].
Dispõe apenas de breves momentos para escrever a [António de Araújo] e manifestar o seu desgosto e a sua aflição pelo seu silêncio, muito embora reconheça que as actuais circunstâncias são horrivéis. O vosso amigo "Maître de Botanique", [Francisco José Maria de Brito] ainda não recebeu e a autora inquieta-se porque sem ele o seu futuro permanece incerto. Apesar do seu zelo e dedicação não recebe nada. Marido, [Abraham Cappadoce-Pereira], está encurralado e socorre-se da autora que, por piedade e por dever, ajuda-o. [Joaquim] L[obo da Silveira] disse-lhe que o pequeno T., pai de Rolando, pensa em pagar-lhe. O "petit" B[ezerra] já deve estar em vossa casa, ele é um homem feliz e bondoso. Solicita uma palavra de amizade e para que não se esqueça dos amigos. A autora diz que vive triste e desencorajada porque a situação não é agradável e só uma palavra do destinatário, só o seu auxílio poderá melhorar a sua vida.
Entusiasmada pela oportunidade, escreve ao amigode Araújo para se fazer recordada e para solicitar notícias, apesar de saber que as numerosas ocupações em que ele se encontra que aliadas à dureza do clima obstam a que ele responda com rapidez. Espera ao menos uma palavra para assegurar a sua felicidade. Diz que os inimigos do destinatário estão aterrorizados e curvam a cabeça diante das vossas virtudes por saber vencer as intrigas e as tramas e fazer-se escutar por um Príncipe que, com justiça, sabe reconhecer a sua devoção e afecto. O "Platonique" [Morgado de Mateus], ficou em desespero quando soube a notícia [da nomeação de Araújo para o Ministério da Marinha] e nem aceitou o convite para a festa que ela e Brito deram, no dia 15 deste mês, para festejar a paz e o aniversário do Marquês de Marialva. Participa que todos os grandes senhores estiveram cá, o Condes do Funchal, de Palmela, de Barbacena, [o Duque] de Cadaval, os Marqueses de Abrantes, o "Comte" [D. Lourenço] de Lima. A Marquesa de Mos, como outras damas espanholas que estiveram cativas aqui, também estiveram presentes. A noite foi encantadora. Ergueram um palco no jardim, onde foi representada uma peça em homenagem de Marialva, em que participaram Mr. Briffant, Antoinette, Madame de Sousa a espanhola, o filho de Vicente Navarro e a autora. Emília cantou um hino gratulatório à paz, com versos do Dr. [Vicente] Nolasco [da Cunha] e música de Mr. De Thierry. ?Fala da morte de Josefina?. Pede para não se esquecer de Marido que muito sofre por ainda não ter recebido o soldo. Em P.s. é inconcebível como há sete anos que o "vosso amigo" não recebe o soldo, e mesmo assim vai em socorro dos seus compatriotas. O Conde do F[unchal] nada fez por ele. Proteja-o e faça com que empregue os seus talentos, as suas luzes em benfício do Príncipe.
Comunica ao amigo que se encontra muito inquieta em virtude de lhe ter escrito a falar sobre as complicações de saúde do destinatário. Solicita por notícias que possam aniquilar a sua inquietude. A situação em que se encontra é cada vez mais cruel e sustenta que se não fosse o amigo dede Araújo, [Brito], não saberia como viver. Pede ao destinatário que intervenha para que B[rito] e o Marido recebam o que lhes é devido, para que tudo possa regressar ao normal. Acredita que ainda poderá rever o destinatário e que um momento passado em sua companhia seria o suficiente para a autora esquecer as agruras da vida. Despede-se com versos em italiano [de Metastasio] e com o pedido de não a esquecer.
Informa que o "nosso amigo" [Brito] expede hoje um correio, e a autora expediu a sua menina, conduzindo esta mesma manhã ao altar para casar com um homem honesto que a ama com ternura. Numa carta precedente já comunicou o nome e o posto deste homem. Espera que ela seja feliz e tudo a faz crer que sim. Refere que sem o "vosso amigo", anjo consolador dos infortunios, não saberia qual seria a sua sorte. Ele, com uma delicadeza difícil de igualar, adiantou o dinheiro para a autora fazer o enxoval da filha, a quem dá 3.000 francos por ano. Refere-se ao pagamento de uma dívida do seu marido e ao valor que o banqueiro lhe concede para elucidar d'Araujo do valor com que vive. Pede ao destinatário que interceda para que paguem o que é devido ao Marido. Não a esqueça. Lembra a lembrança para Ant[oinette], sua afilhada.
Expressa o desejo em rever o amigode Araújo. Comenta a chamada do pequeno B[ezerra] e a vida errante que tem, por inerência, a esposa dele, que com esta idade percorre tantos países e experimenta a sociedade caprichosa e melancólica do marido. Pergunta ao destinatário porque razão não vai para o país da princesa [Carlota Joaquina], onde é admirado e estimado, e onde ser-lhe-ia mais fácil obter notícias do destinatário. Informa que o seu amigo [Brito], vive rodeado de embaraços, porque ainda não recebeu o anunciado. O Marido vive, também, encurralado o que causa transtornos à autora. Ele insta a autora a escrever a todo o mundo em seu favor, como a L[obo], a B[ezerra] e ao destinatário. O clima do país onde se encontra desgasta-lhe a saúde e por isso deseja obter um cargo na Sicília, mesmo sem saber se o cargo está vago ou não! Ele vive tão infeliz que não tem a coragem de lhe negar alguma coisa. Como conhece a delicadeza e generosidade, está persuadida de que se este assunto depender do destinatário alguma coisa será feita. Por piedade para com ele e amizade pela autora faça com que lhe paguem. Pede por notíciase depede-se com "Vale et me Ama".
Sentiu uma rara felicidade por ter recebido a carta do amigode Araújo de 12 de Setembro, por [Manuel Rodrigues] Gameiro [Pessoa], tal como foi de uma alegria imensa conhecer alguém que trabalha com o destinatário. Reafirma a sua dedicada amizade que lhe absorve toda a existência. Elogia os trabalhos dede Araújo e recebeu com imensa alegria a notícia da sua nomeação para o Ministério [da Marinha e do Ultramar], testemunhando assim pela amizade e favor que o Soberano lhe concede. Diz que não são estas as lágrimas que lhe fazem mal, mas sim as que verte devido à doença que atormentou o destinatário. Acha que o Soberano deveria conceder-lhe uma licença para restabelecer definitivamente a saúde, que poderá ser afectado pela excesso de trabalho. Deseja tanto revê-lo que até inveja a partida de Mr. Beaurepaire, mas sabe que isto é difícil agora que o Princípe tomou a decisão de se fixar no Brasil. A escolha de Brito foi acertada, são impressionantes os seus inúmeros trabalhos. Pede ao dest. para que interceda a fim de pagarem a Brito o que ainda lhe devem. Implora por auxílio para o infeliz Marido que, também, nada recebe e a autora tem de ir em seu socorro, numa altura em que Antoinette, afilhada do destinatário, pretende casar. Refere-se à questão entre o "Platonique" [Morgado de Mateus] e Brito. Comenta que "Adéle" ofereceu "soirées" todas as semanas para atrair o "Héros Anglais" e por aí governar em vossa casa. O filho dela é o amante declarado daquela que governou, durante algum tempo, o pais que vós amais. Acaba de receber uma carta da mulher do B[ezerra]que deve estar alarmada com o estado do seu marido. Despede-se com versos [talvez da Venality, já reproduzidos na 1.ª carta].
Diz que há quase um mês e meio que começou a sua carta, mas ainda não apareceu a ocasião para remetê-la. Entretanto o amigo do destinatário assegurou-lhe que a faria partir. Comunica que [a filha] Marie-Antoinette[-Isabelle Cappadoce Pereira], tem um homem honesto que, apesar de não ser rico, espera que ele lhe favoreça com felicidade. É um piemontês ao serviço da França, Cavaleiro de Saint Louis e da Legião de Honra. Foi o bom e generoso Brito que me avançou para fazer o enxoval de Antoinette, assim como os extras do casamento. Solicita ao destinatário para que, em nome de Deus, interceda para o Marido ser pago, porque os adiantamentos que sou forçada a fazer-lhe arruinam-me. Pergunta ao destinatário, como padrinho de Antoinette, se enviará uma lembrança pelo seu casamento.
Manifesta a sua alegria pela carta de 16 de Junho, recebida pelo amigo Brito assim que chegou a França. Assustou-se ao ver a letra dede Araújo e só Brito conseguiu tranquilizá-la e encorajá-la a ler a carta. Soube que o destinatário esteve muito doente, mas o céu salvou-lhe a vida para bem dos amigos e para a glória e honra da pátria e do Soberano. Deseja-lhe as melhoras. Relata o reencontro com o bom [Joaquim] Lobo [da Silveira], que continua o mesmo franco e leal amigo. Estimou conhecer a sua esposa [Sofia Amelia Murray] que é doce e muito amável. Recorda os tempos em que passaram juntos e esta longa e cruel ausência em nada alterou o sentimento sagrado que a une ao destinatário. Agradece os favores do destinatário pelo Marido, [Abraham Cappadoce-Pereira]. Ele teve a honra de jantar com o Rei da Dinamarca na sua passagem por Altona e beneficia da amizade de Mr. Rosenkrantz [Ministro Negócios Estrangeiros de Frederico VI]. Informa qu escreveu uma carta ao destinatário no mês de Maio, de Baden onde passou cinco meses. Mas, por uma fatalidade não conseguiu usufruir de nada, porque a sua companhia, Madame de Sousa, Marquesa de Gracia Real adoeceu, de maneira que a auora foi a sua "garde-malade" durante toda a estadia. Participa que Brito partiu para Viena e depois para Paris com Luís XVIII. Lamenta o estado da França, país outrora tão poderoso que outorgou a sua lei ao universo e hoje é humilhado e curva-se perante aqueles que lhe dá ordens dentro da sua própria capital. Eis o efeito da acção de um só homem, do terrível abuso do poder, do despotismo e da perfídia. Passou o Reno em Mayence e o seu pensamento transportou-se para o tempo em que estavam juntos. Comenta o justo castigo do "Platonique" [o Morgado de Mateus], homem de espírito e de talento que se tornou um imbecil, sendo motivo de escárnio de todo o mundo, tal como a sua mulher é o horror da sociedade. A sua perfídia, as intrigas e a ambição desmedida deveriam fazer tremer os ingratos. Refere-se ao casamento de Emília, filha da pobre Cateau, e ao de sua filha Antoinette. A justiça que de Araújo prestou ao excelente [Francisco José Maria de] Brito causou-lhe o maior prazer, tanto mais quando ele vive apenas para ser útil à Pátria e ao Soberano.
A pedido da Princesa de Vaudémont, recomenda a de Araújo, Ministro [da Marinha e do Ultramar], o amigo [Segismundo] Neukomm, professor alemão e pianista de grandes méritos, que pretende estabelecer-se no Brasil. A autora conta responder à carta de 31 de Agosto pelo correio do próximo sábado. Está muito feliz por saber que Araújo já está inteiramente restabelecido. Comunica o falecimento de Mr. Bertola e a doença da pobre Antoinette. Na última página está anotado o endereço: "A Son/ Excellence Monsieur/ D'Araujo Ministre/ D' Etat au Brezil//".
Expressa "neste dia de anno [novo]" os seus desejos de prosperidade a António de Araújo. Partilha os dissabores que sente fruto da falta de meios, que só a conservação da amizade e a protecção do destinatário poderiam suprir. Lamenta a "horrivel distancia" que os separa. Sentiu grande prazer pela carta recebida, mas infelizmente estes gostos são raros. Pede desculpa por recordar as súplicas de um cargo honroso e lucrativo para o pai, mas os seus serviços e a injustiça que lhe prestaram, consignam-lhe esse direito. Diz que a Araújo, "que esta hoje com grande valimento" ser-lhe-à fácil proteger o pai agora que tudo mudou e já não existem as mesmas "couzas" [Ratton já fora ilibado]. Em sua casa, estão a mana Joana e o marido o Marquês de Chardonnay, que todos os dias tem recebido visitas dos parentes da Corte, conta com a protecção desta marquesa e do Rei para ser empregado. Se o marquês obter a patente de oficial com o soldo competente, "serlhe hei" reconhecida. No Sobrescrito: "Ao Illmo. E Exmo. Snr./ Antonio D'Araujo/ Ministro De Estado da/ Marinha/ Rio de Janeiro//".
Implora a S.A.R. o Príncipe-Regente de Portugal, pela sorte do pai que vive no maior desgosto por se negar no desagrado de S.A.R.. Deseja obter de novo a régia protecção e ser empregado em algum cargo de utilidade à pátria, por forma a recuperar a sua honra. As circunstâncias da guerra provocaram ao pai grandes perdas e a autora vive em infelizes circunstâncias, devido à cessação da renda que usufruia o falecido marido, homem de honra que morreu pobre. Deus livrou-nos, enfim, "do flagelo da humanidade" Bonaparte a quem deve as suas maiores infelicidades, incluindo a morte do marido. Defende que com a sua posição, tanto por nascimento como pelo marido, não merece viver privações, sendo que muitas vezes recebe convites para ir à Corte e gasta mais do que pode. Roga pela obtenção de uma mesada como graça especial. António de Araújo, seu antigo amigo, poderá falar-lhe sobre o exposto. Participa, ainda, que a sua irmã mais nova está casada com o Marquês de Chardonnay, membro de uma das famílias mais antigas e distintas de França com ligações à Casa Real. O referido marquês e o irmão estiveram ao serviço de Portugal, sendo bem conhecidos de António de Araújo. Em breve chegam de Londres, sendo que a Marquesa mãe já cá se encontra, tendo inclusivamente sido recebida por S.M.. Luís XVIII, trata-me muito bem e demonstrou muito interesse e encanto por S.A.R.. Apresenta os seus respeitos e submissão à Princesa Carlota a quem oferece os seus préstimos em Paris. Recorda a baronesa do Real Agrado.
Pelo Brito que recebeu antes de ontem uma carta de António de Araújo pelo rapaz que trazia despahos, soube que já passava melhor a saúde. Diz que se o destinatário duvidar dos seus sentimentos "seria offenderme", morria de paixão. O seu retrato nunca me deixou. Está certa que o destinatário a protegerá nas infelizes circunstâncias em que se encontra juntamente com o pai. Defende que os seus princípios de honra e dignidade. Com confiança e esperança na bondade e protecção do destinatário remete a carta inclusa para o Príncipe, a qual vai aberta para que a possa ver. Espera que não a desaprove pois "aqui assim se escreve nestes paijses aos monarcas". Ficará eternamente agradecida se o amigo António de Araújo fizer "as partes boas" e depois mande dizer com sinceridade a resposta do mesmo Senhor. Refere que só diz a verdade, mesmo quando o rei Luís XVIII pergunta por S.A.R., homem bom e com afeição "pela nossa Corte". Expressa o desejo em ver que uma das nossas princesas case com o Duque de Berry, prestando-se a ser Dama da mesma. Alerta destinatário para a necessidade de falar neste casamento ao Príncipe antes que outras Cortesse lembrem disso "pois tenho ouvido falar a este respeito". O pai ficou contente por saber que a autora tinha recebido notícias de António de Araújo.
Escreve esta terceira carta depois de ter recebido a do amigo António de Araújo datada de 17 de Setembro. Triste e melancólica a viver numa situação que nunca imaginou, repete os seus cuidados pela saúde do destinatário e diz que a maior prova de amizade que pode prestar-lhe é anunciar por carta que se encontra restabelecido. Terá uma grande mágoa se o não tornar a ver e pergunta sempre por notícias suas quando vê Brito. Em todas as cartas tem feito uma fiel narração da triste situação em que se encontra, pedindo sempre por protecção. Deseja ver o pai empregado, pois vive em situações desagradáveis e não pode socorrer com mais alguma coisa a autora. Transmite o desejo em que o pai tenha uma satisfação do insulto que o obrigou a deixar Portugal. Nada lhe resta do seu marido, pois teve de vender todo o que ficou para pagar as dívidas contraídas durante as guerras de Espanha e da Rússia. Hoje, que faz um ano da morte do marido, recorda que ele era um homem honrado e como tal morreu pobre, não "como hum General Junot". Repete os pedidos das cartas anteriores. Não pode deixar Paris devido aos negócios em curso. Vive desgostosa, mas esconde de todos a forma como vive, "só há aparencias" e os bons moveis. Perdeu 50 mil libras de renda pela morte do marido e dos 3 mil francos de pensão que lhe foram concedidos por Bonaparte ainda não recebeu um real, antevendo que será demoroso, pois tudo está em desordem. Faz um pedido de açucar e de de café por algum navio que venha para França, mas não lhe pede ametistas como "serta senhora" [Suzanne Cappadoce] que está "cadaver, pior, velha e louca". Refere-se à carestia em Paris. Remete esta carta pelo amigo Pedra. Em P.s. já escreveu que a mana Joana está casada com o marquês de Chardonnay, que outrora esteve ao serviço de Portugal, e que ambos estão prestes a chegar a Paris, vindos de Londres. A marquesa velha já cá está. O pai da autora não queria este casamento e opôs-se veemente. Cumprimentos para a Baronesa do Real Agrado e pede-lhe que lhe fale neste casamento.
Como sabe que Brito expede um correio por Gameiro, aproveita a oportunidade para se recordar a António de Araújo e apresentar os votos de feliz saúde. De V.ª Ex.ª depende muito a felicidade da autora e do pai, estando a aguardar por notícias favoráveis. Pelo carácter como o seu, pela antiga amizade e "circonstancias que há entre nós", o destinatário não se esquecerá de satisfazer os repetidos rogos que tem apresentado, e que são inutéis de serem apresentados novamente. O portador desta carta leva outra mais circunstanciada. Durante estes dias tem acompanhado Madame Lobo, tendo este casal sido apresentado por Marialva. Aceitou o convite dos mesmos para jantar e encontrou Marialva, Carvalho e Navarro, tendo inclusivamente brindado ao destinatário. Marialva trata-a com a maior distinção e respeito e está certa que se lhe pedisse alguma coisa ele não recusaria. Lamenta ter ingleses em sua casa, apesar de não os ver, apenas fornece-lhe "luz e roupa branca". Portam-se melhor do que os do mês passado. Deseja receber notícias. Oferece um vidro com sal inglês, muito eficaz para a cabeça, pedindo que aceite como uma pequena lembrança "daquella que há 15 anos tanto o ama". Em P.s. pede para que mande dizer se a pensão pedida ao Príncipe foi aceite.
Pode finalmente escrever sem receio que a carta seja desviada ou retida. Felizmente já se respira sustos maiores já cessaram. Os momentos vividos foram muito tristes enquanto "se não viu o fim a esta grande bulha". Apesar de estar acostumada a estes acontecimentos, confessa que desta vez sentiu medo enquanto o "monstram" não deixou a capital. Agora que Deus livrou-nos do monstro tudo é mais seguro. A ele deve todos os seus desgostos, a perda do marido pelo amor [de Napoelão à Guerra], e se ele não tivesse mandado tropas a Portugal o pai não teria passado pelos desgostos que passou e a casa não estaria na desordem que está. [Napoleão] não se contentou com os milhões que a nossa Corte lhe concedeu, e a única coisa que a consola é saber que ele não tocou "na nossa família real, que Corte nenhuma brilhou como a nossa". Queixa-se da situação que se vive em França país de "gente doida, sem moral nem carácter" e para que tem juízo este não é um país para habitar. Enquanto esteve cá o "mao homem" a autora viajou pelo campo. Desejava ter outro país para viver com a filha. Se pudesse falar com o destinatário muito riria pelo que ela tem visto no mundo. Relata o sucedido à Sousa que recebeu ordem para deixar definitivamente o reino e que a mesma pediu para ir para Portugal. Ela é "conspiradora, intrigante, má", que até tem dó de D. José, bom homem que tem sido martirizado por este degenerado casamento. O filho dela era valido do "mao homem". Soube pelo portador desta carta que a saúde do destinatário estava melhor. Sente-se agoniada pelos "lugamentos dos aliados", onde nenhuma pessoa está isenta. Pede para o destinatário se lembrar de si e do pai. Pergunta porque não escreve. Receia que não tenha conseguido obter-lhe a pensão que tanto deseja. Relata a visita feita à Duquesa de Angouleme e ao Rei. V.ª Ex.ª é meu confessor e depois de meu pai o meu maior amigo. A Brito, que esteve cá ontem, não diz tudo. Marialva, amigo e fidalgo respeitável, acaba de sair daqui depois de converarem sobre assuntos sérios. Os portuguese começam a regressar a Paris. Em P.s. a mana Marquesa e o marido estão em Londres, tendo partido daqui no dia seguinte ao rei ter saído para Gand. O cunhado, com um cargo prometido pelos príncipes, deseja regressar a França e ser empregado junto do Conde de Artois. A marquesa mãe está em St. Malo e regressa em breve.
Participa que devido à moléstia longa e perigosa da filha não pode ser tão extensa como desejava, mas não queria perder a oportunidade para pedir notícias do bom e antigo amigo António de Araújo. Parece que ele se esquece de si, depois da promessa que lhe escreveria. Diz que só tem trabalhos e os maiores desgostos e que uma das maiores fortunas que pode ter é saber se o destinatário passa bem de saúde. Não passa um dia sem se lembrar do destinatário e sempre que pode pergunta ao nosso Brito por notícias. Desconhece se tem recebido as muitas cartas que já escreveu, onde pedia encarecidamente protecção junto do Príncipe para o pai. A posição da família é bem diferente do que quando estavam em Lisboa devido às revoluções, ao sucedido com o pai em Lisboa, às perdas sofridas e à vivência num país onde tudo é tão caro. Pede ajuda pois se não fosse o pai, morreria de fome. Diz que tem sido muito infeliz e merecia mais ventura. Só de V.ª Ex.ª poderei obter mais felicidade. Pediu também ao destinatário que lhe concedesse uma pensão mensal, em remuneração dos serviços do tio António de Lima que morreu numa acção. Viúva, pobre e sem protecção, apenas fala com toda a franqueza e deseja dever ao destinatário uma vivência menos punível. A irmã Marquesa de Chardonnay está hospedada aqui em casa, e o marido é muito estimado na Corte pelo que acredita que ele será empregado. A irmã Lúca ainda não casou e vive com o pai.
Não pode viver sem ter o alívio de escrever a António de Araújo, embora desconheça se as suas cartas lhe "são pezadas". Das tantas cartas que já escreveu, apenas recebeu uma em resposta, começando já a acreditar que o destinatário esquece-se de si. Descontente e desesperada, lembra os seus infortúnios e os que o seu pai, que é muito seu amigo, vive em Londres. Faz o pedido a António de Araújo para ser seu amigo, para os proteger porque caso contrário, cairá em grande desespero. Deseja que o seu pai obtenha uma satisfação, que seja nomeado para um cargo para que possa viver com as filhas. Ficará eternamente reconhecida se o destinatário der esta prova da sua amizade. Não acredita que a sua desgraça não comova o coração do destinatário. Faça por obter do príncipe uma "réparation de honneur" por escrito. A posição em que se encontra é muito difícil, até Brito desconhece a sua real dimensão, e terá de começar a vender alguns dos seus objectos para providenciar a sua subsistência e a da sua filha. Pede ao destinatário que obtenha do príncipe uma pensão para si. Recomendações da irmã e do Marquês de Chardonnay. No Sobrescrito: "A Monsieur/ Monsieur D' Araujo/ Ministro D'Estado/ Da Marinha/ Rio de Janeiro//".
Expressa os seus cuidados pelo estado de saúde de António de Araújo. A carta que dele recebeu causou o maior prazer por ter notícias suas, o que já não acontecia há anos, mas ao mesmo tempo ficou entristecida, pelas notícias da saúde. Apesar da grande distância que os separa e de todas as circunstâncias que a impediram de lhe escrever, nunca deixou "de o amar". Fala no retrato de António de Araújo que está no seu salão. Refere-se ao seu casamento e à conduta muito digna que o marido sempre teve consigo, mas mantém a paixão pelo destinatário a qual não lhe é desconhecida. Diz que se estivesse em Lisboa ia vê-lo, mas ao Brasil não se atreve. Lamenta que o destinatário não acredite nas suas desgraças e no desgosto sofrido quando ele a deixou em Paris. Foi casada cinco anos, mas ao todo apenas viveu dez meses com ele. E as recordações do restante tempo são de inquietudes e angústias por ele estar na guerra. Está sem apelo, sem protector, sem amigos, sem fortuna. Vivendo privações e desgraças, esta é a cruel existência "meu caro Araújo e meu melhor amigo". Mas, nunca abandonou os princípios que devem acompanhar uma mulher bem nascida e bem criada. Pede para não a abandonar e para proteger o pai, para que o faça sair de Londres, para que lhe conceda um emprego, para que lhe seja restituída a honra. Defende que ele nada fez para ser insultado de maneira tão cruel como foi em Lisboa, sofrendo grandes perdas. De nenhuma outra pessoa poderá esperar auxílio. Pede para alcançar do Príncipe uma pensão de 500 francos. Apenas lhe resta o mobiliário de sua casa, porque tudo o resto foi vendido para pagar as dívidas do marido. Suplica por notícias.